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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

1 - Vasco da Gama na Baía de Santa Helena - erro de navegação ?

22.06.17

Em 1488, Bartolomeu Dias, num extraordinário feito náutico, dobra pela primeira vez a extremidade sul do continente africano. Quase dez anos mais tarde, em 1497, Vasco da Gama, comandante da primeira armada com destino à  Ìndia, fundeia a sua frota na Baía de Santa Helena, cerca de dois graus (120 milhas náuticas, aproximadamente 220 quilómetros) para norte do Cabo da Boa Esperança, na costa atlântica de África. Esta situação é no mínimo surpreendente, as intenções iniciais de Vasco da Gama passariam seguramente por passar a sul do Cabo da Boa Esperança, na conclusão da longa viagem que tinha acabado de efectuar no Atlântico Sul, navegando seguidamente para norte, à procura de terra, já na costa oriental do continente africano, para reabastecimentos e reparações, tal como Bartolomeu Dias tinha feito.

 

Bartolomeu Dias_Cape Town_1978.JPG

  (foto tirada pelo autor, em Agosto de 1978, monumento a Bartolomeu Dias, Cidade do Cabo, África do Sul)

 

Para os marinheiros portugueses da armada de Vasco da Gama, a surpresa deverá ter sido enorme ao depararem com uma baía desconhecida situada na costa ocidental de África, ou seja ainda não tinham dobrado o Cabo da Boa Esperança. Face a esta situação, podemos suspeitar de um eventual erro de navegação, que se teria manifestado de forma inesperada e que tentaremos abordar num futuro texto.

 

A técnica de navegação utilizada por Vasco da Gama e pelos seus Capitães e Pilotos, assentava fundamentalmente na estima construída através da conjugação da velocidade estimada do seu navio com os rumos navegados e o eventual conhecimento de ventos e correntes marítimas dominantes. Periodicamente, sempre que as condições atmosféricas o permitiam, a latitude era calculada com a observação da altura do Sol na passagem deste pelo meridiano do lugar (o chamado “meio-dia”). A utilização da Estrela Polar era muito mais limitada e apenas possível no hemisfério norte. De certa forma, a obtenção da latitude através da altura meridiana do Sol funcionava como um factor de correcção da navegação estimada.

 

A latitude do Cabo da Boa Esperança era conhecida, Bartolomeu Dias tinha-a calculado. Ao aventurar-se pelo Atlântico Sul, é legítimo considerar que Vasco da Gama terá navegado para sul (ao largo do então desconhecido Brasil) até alcançar essa latitude, não faz sentido a utilização de uma estratégia diferente desta. Atingido esse objectivo terá começado a navegar sistematicamente para Este, estimando a sua longitude através da aplicação das já referidas técnicas de navegação estimada. A latitude a que se encontrava era calculada sempre que era possível obter a altura do Sol durante a passagem deste pelo meridiano do lugar. Recorde-se, Vasco da Gama, neste trecho de viagem, queria apenas garantir que navegava na latitude correcta para passar a sul do Cabo da Boa Esperança no sentido oeste-leste. Considerando as dificuldades enfrentadas por Bartolomeu Dias e a forma como este conseguiu dobrar o Cabo da Boa Esperança, Vasco da Gama decidiu replicar parte da estratégia utilizada por Bartolomeu Dias quando este dobrou o Cabo da Boa Esperança. Efectivamente, numa decisão mais ou menos afortunada mas que viria a tornar-se fundamental para a história dos Descobrimentos Portugueses, perante os forte ventos contrários de Sul e quando navegava na mesma direcção ao longo da costa africana (não muito longe da Baía de Santa Helena), Bartolomeu Dias decidiu navegar para oeste, penetrando de novo no Atlântico Sul até apanhar  ventos favoráveis de Oeste que lhe permitiram novamente navegar para leste e dobrar o  Cabo da Boa Esperança sem que o tivesse avistado.

 

BDias1.png

 

Relacionado com o extraordinário feito de Bartolomeu Dias, vejamos este pequeno excerto do diário de bordo cuja autoria é atribuída a Álvaro Velho, tripulante da Armada de Vasco da Gama :

  

AVelho1.png

 

Pêro de Alenquer foi um excepcional piloto português do século XV tenho participado na viagem de Bartolomeu Dias e pilotado a nau S. Gabriel da Armada de Vasco da Gama. Segundo Álvaro Velho, durante  a estadia na Baia de Santa Helena, Pêro de Alenquer estimava que a Armada se encontrava a não mais do que 30 léguas (aprox. 1,5 graus) a rree (ré) do Cabo da Boa Esperança. Justificava Pêro de Alenquer que não podia afirmar nada de muito concreto, pelo facto de um dia (na viagem de regresso da frota de Bartolomeu Dias), ter largado do Cabo da Boa Esperança pela manhã e de ter passado por ali de noite e com vento de popa, isto após terem navegado pelo largo na viagem de ida (facto que já conhecemos).

 

- "ter largado do Cabo da Boa Esperança pela manhã e de ter passado por ali de noite e com vento de popa..."

 

 

Esta afirmação de Pêro de Alenquer não esclarece de forma inequívoca se a referida noite foi a do dia de partida (largada do Cabo da Boa Esperança de manhã cedo, provavelmente) ou uma outra noite qualquer.Como vamos verificar, Pêro de Alenquer terá provavelmente passado ao largo da Baía de Santa Helena cerca de 30 horas após ter largado do Cabo da Boa Esperança a bordo da S. Gabriel.

 

A distância percorrida terá sido igual a cerca de 215 kms, ou 116 milhas náuticas, ou seja aproximadamente 40 léguas (imagem seguinte).

 

Cabo1.png

 

Apesar de ser um tema muito controverso, normalmente é considerado que a velocidade das naus só excepcionalmente alcançava os 4 ou 5 nós (4 ou 5 milhas marítimas por hora), pelo que o troço de viagem relatado por Pêro de Alenquer terá durado seguramente entre 33 horas (velocidade de 3 milhas por hora) e 25 horas (velocidade de 4 milhas por hora).

Considerando a hipótese de Pêro de Alenquer ter largado do Cabo da Boa Esperança de madrugada e passado ao largo da Baía de Santa Helena na noite desse mesmo dia, em limite a viagem teria então durado cerca de 20/22 horas, obtendo-se uma velocidade (mínima) estimada de cerca de 6 nós, valor excepcional pois este valor é normalmente considerado como a velocidade máxima das naus da época. Assim sendo, assumimos como seguro afirmar que Pêro de Alenquer terá passado na Baía de Santa Helena na noite do dia seguinte e não na noite do dia de partida, ou seja cerca de 30 horas após largar do Cabo da Boa Esperança.

 

- "Pero Dalanquer dizia que ao mais que podiamos ser seriam trinta léguas a rree do Cabo......."

 

Na nossa perspectiva, não é fácil concluir de forma categórica sobre o significado de "rree"  atribuído por Pêro de Alenquer no enquadramento da frase. Se queria dizer que estavam a norte, porque não dizer simplesmente que estavam 30 léguas a norte? Por outro lado, e considerando que a armada de Vasco da Gama desde há largos dias que navegava sistematicamente para este, também pode ser aceite que Pêro de Alenquer quisesse dizer que estavam "para trás" não mais do que 30 léguas do Cabo, ou seja a Oeste do Cabo.

 

No caso concreto, a distância entre latitudes era a seguinte:

 

Cabo2.png

 

A latitude do Cabo da Boa Esperança era conhecida (Pêro de Alenquer tinha lá estado com Bartolomeu Dias) e na Baía de Santa Helena seguramente que foram feitas diversas leituras da altura do Sol. Assim sendo, Pêro de Alenquer verificou que em latitude distava cerca de 195 kms (106 milhas náuticas) do Cabo da Boa Esperança, ou seja aproximadamente 35 léguas. Este valor é consistente com a afirmação de Pêro de Alenquer, estimando que se encontravam, no máximo, a 30 léguas a norte (rree) do Cabo da Boa Esperança.

 

Caso Pêro de Alenquer quisesse dizer que estavam 30 léguas afastado em longitude, através de simples cálculos de navegação estimada obteve essa distância das próprias cartas náuticas que eventualmente teria acesso, na prática resolvendo o seguinte triângulo rectângulo:

 

Cabo3.png

Aplicando o Teorema de Pitágoras sabemos que X = 19 léguas (Oeste -rree - ré), valor que se afasta significativamente da afirmação de Álvaro Velho, mesmo considerando todas as condicionantes e aproximações aplicadas nos cálculos.

Consideramos então ser razoável concluir que Álvaro Velho estimava estar, no máximo, 30 léguas a norte do Cabo da Boa Esperança. 

Este testemunho é importante pois os cálculos de Pêro de Alenquer tinham que estar baseados na comparação de latitudes, e os valores obtidos afastam a hipótese de Bartolomeu Dias ter cometido um erro grosseiro no cálculo da latitude do Cabo da Boa Esperança.

Hoje sabemos que Bartolomeu Dias e os seus Pilotos terão efectuado várias leituras da altura meridiana do Sol em diferentes pontos vizinhos do Cabo da Boa Esperança, tendo sido colocados três padrões, um deles no próprio Cabo da Boa Esperança. Dessas leituras terá sido correctamente obtido o valor da latitude do Cabo, pelo que a dimensão do erro no valor da mesma, a existir, deveria ser insignificante para o rigor existente naquela época.

  

BDias2.png

  

A não detecção de um desvio (cerca de dois graus) tão acentuado no valor da latitude que conduziu a armada de Vasco da Gama para a Baía de Santa Helena, não nos parece que possa estar associado a uma deficiente utilização dos aparelhos de medição de altura do Sol (astrolábio, quadrante, balestilha) ou das respectivas tabelas (“Tábuas”) náuticas de então, mas sim a um somatório de situações que conduziram a este erro, nomeadamente o efeito sobre a navegação estimada da então desconhecida declinação magnética, tal como iremos ver num futuro texto.

 

Vasco da Gama e os seus pilotos, em condições normais de tempo e mar, teriam efectuado várias leituras da altura meridiana do Sol ao longo da fase crucial da sua viagem, quando a Armada navegava para Leste em pleno Atlântico Sul, pelo que qualquer erro esporádico na leitura da altura do Sol seria imediatamente corrigido com as leituras efectuadas nos dias seguintes. Os resultados obtidos por Vasco da Gama eram seguramente sólidos, pelo que deve ser considerada a hipótese de que durante os dias de navegação sistemática para Leste que antecederam a chegada à extremidade sul do continente africano, dadas as condições atmosféricas, não tenha sido possível efectuar a leitura da altura do Sol, tendo os navios da Armada abatido significativamente para norte.

 

Outro factor muito importante que deve ser considerado é que o valor da longitude do Cabo da Boa Esperança resultava exclusivamente do valor estimado por Bartolomeu Dias. Navegando na latitude correcta, existe assim uma outra hipótese para justificar a chegada á Baía de Santa Helena, e que consiste na possibilidade de Vasco da Gama ter concluído que já tinha ultrapassado a longitude do Cabo da Boa Esperança, tendo então começado a navegar deliberadamente para norte.

 

A própria designação do vizinho Cabo das Agulhas poderá estar indirectamente associada a esta eventual decisão de Vasco da Gama de rumar para norte, permitindo especular sobre um eventual conhecimento muito incipiente sobre o comportamento das agulhas magnéticas naquela zona do Continente Africano (naquele local, a declinação magnética naquela época era nula).

São todas estas questões e todas as suas envolventes, que iremos abordar ao longo dos próximos textos.

 

Nota de Rodapé: 

A identidade do autor da designação do Cabo das Agulhas ainda hoje está envolta em mistério e provavelmente assim permanecerá para sempre, mas atendendo à primeira referência conhecida (planisfério de Cantino, de 1502), o autor terá sido um dos primeiros quatro Capitães que por lá passaram, a saber, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral ou João da Nova. Consideramos que terá sido Bartolomeu Dias o autor desta designação, mais adiante apresentaremos justificação para esta nossa convicção.