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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

3.2 - A Estrela Polar

22.03.16

A utilização da estrela Polar na determinação da direcção do norte geográfico aparenta ser um processo mais simples mas não é exactamente assim. De facto, dizer que a Polar está sempre na direcção do norte geográfico não é rigorosamente verdade.

Como primeira dificuldade na utilização da estrela Polar para este efeito, é o facto de a estrela Polar só ser visível no hemisfério Norte, isto em termos astronómicos, pois na prática só é visível para latitudes superiores aos 5-10 graus norte, a identificação visual da Polar é muito difícil em latitudes (norte) que se aproximam do Equador.

Como segunda dificuldade, e para sermos rigorosos, sabemos que a Polar não se encontra exactamente no enfiamento do eixo da Terra, apresentando uma distância angular de cerca de um (1) grau, pelo que a Polar descreve um pequeno círculo no céu em cada dia. O efeito da atracção que o Sol exerce sobre o nosso planeta, que já de si não é uma esfera perfeita, provoca um movimento da projecção do eixo da Terra ao longo de uma circunferência, movimento conhecido por precessão dos equinócios, pelo que esta distância angular varia ao longo dos tempos.

 

Polar1.png

 

Em termos práticos podemos visualizar a precessão dos pólos da Terra através do movimento que se observa num pião que roda com o seu eixo ligeiramente inclinado.

Na figura anterior podemos identificar o referido movimento de precessão do eixo da Terra. Cada volta completa dura cerca de 26.000 anos a efectuar. Por este facto, a distância angular da Polar em relação ao Pólo era bem maior nos séculos XV e XVI do que nos nossos dias, sendo então aproximadamente igual a 3.5 graus.

Assim sendo, e como a Polar não se encontra exactamente no enfiamento do eixo da Terra, teríamos que determinar o momento da passagem meridiana da Polar no meridiano do lugar do observador. Ao descrever aparentemente um círculo no céu, isso significa que a Polar passa no meridiano do lugar do observador duas vezes por dia.

Apenas a título informativo, convém referir que na época dos Descobrimentos se tentou ultrapassar esta dificuldade através dos célebres Regimentos (existem vários) da Estrela Polar que os pilotos utilizavam a bordo. Podemos dizer que um Regimento de então correspondia aos guias práticos dos nossos dias.

Com a utilização destes regimentos pretendia-se determinar, com mais ou menos rigor, o momento da passagem meridiana da Polar. Através dos Regimentos era também possível apurar um factor de correcção a considerar no cálculo da latitude do lugar de observação da Polar (como veremos detalhadamente).

Resumindo, identificado o culminar da Polar, o seu azimute nesse momento será sempre Norte e a Polar passará duas vezes por dia pelo meridiano do observador (fig. nº9).

 

Polar2.png

 

Fig. nº9 – Passagem meridiana da Polar