Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

5.4 - As agulhas de marear e a percepção visual da variação

06.04.16

Na fase de construção e montagem das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis, os ferros faziam um ângulo com a flor-de-lis igual à declinação magnética local. Este factor de correcção acompanhava a agulha de marear enquanto ela fosse sendo utilizada, a flor-de-lis ficava alinhada com o norte geográfico do local de construção. Na época dos Descobrimentos, ninguém sabia que este valor da declinação variava com o local e com o tempo pelo que o factor de correcção incorporado na fase de construção deixava de ser valido assim que a declinação (cuja existência não se conhecia) variasse.

 

As agulhas (genovesas, flamengas, francesas, alemãs) eram construídas com a flor-de-lis “fixa nos pólos”, corrigindo o valor da declinação local. Qualquer piloto sabia isso pois era visualmente fácil de verificar que os ferros estavam fora (não alinhavam) com a flor-de-lis, mas os mesmos pilotos retinham a importante informação que a flor-de-lis estava alinhada com o norte geográfico (o que só era garantidamente verdade no local de construção da agulha).

 

No entanto, através da Estrela Polar durante a noite e do Sol durante o dia, seria possível verificar que a flor-de-lis apresentava uma variação em relação ao Norte geográfico. Como iremos ver, só no séc. XV, nomeadamente após Gil Eanes ter dobrado o Cabo Bojador em 1434, é que começaram a existir condições concretas que poderiam permitir aos navegadores portugueses a identificação do fenómeno da variação da agulha.

 

Retomemos o exemplo de uma embarcação navegando para Oeste, saindo de um porto onde a declinação magnética é igual a seis (6) graus leste.

Vamos comparar o que seria observado caso utilizássemos uma agulha de marear com os ferros ferrados fora da flor-de-lis (flor-de-lis com seis graus para oeste em relação aos ferros como compensação) e outra agulha com os ferros na flor-de-lis.

 

lis2.png

 Fig. Nº33 – Ferros fora da flor-de-lis

 

lis3.png

 Fig. Nº34 – Ferros ferrados na flor-de-lis

 

 No início da viagem (fig. nº33 e nº34), e tendo como referência a flor-de-lis, no caso da agulha com os ferros fora da flor-de-lis torna-se evidente que a agulha estaria a nordestear por meia quarta (feita oriental) embora a embarcação estivesse a navegar por rumos verdadeiros, facto então desconhecido para os pilotos. Através da agulha de marear com os ferros na flor-de-lis a leitura da variação não era tão evidente, era necessário saber onde se encontrava o norte geográfico.

 

Numa primeira análise, que iremos reforçar de seguida, parece-nos que o facto de agulha não coincidir com a flor-de-lis podia ser um factor gerador de dificuldade na compreensão do fenómeno da declinação magnética. Em termos práticos os pilotos tinham que tirar as suas conclusões com três parâmetros: a flor-de-lis, a agulha e (quando conhecido) o norte geográfico. Com a agulha com os ferros na flor-de-lis o número de parâmetros reduzia-se a dois.

 

Prossigamos com o exemplo da embarcação navegando para Oeste, mas com a declinação a ficar nula após uns dias de navegação.

 

lis4.png

 Fig. Nº35 – Ferros fora da flor-de-lis

 

lis5.png

  Fig. Nº36 – Ferros ferrados na flor-de-lis

 

 

Mais uma vez confirmamos a nossa percepção de que o facto de agulha não coincidir com a flor-de-lis podia ser um factor gerador de dificuldade na compreensão do fenómeno da variação.

Repare-se que nesta situação se a direcção do norte geográfico fosse conhecida os pilotos concluiriam que a agulha estava fixa nos pólos (fig.nº35 e nº36) mas o facto da flor-de-lis não estar no mesmo enfiamento certamente que poderia gerar alguma confusão, embora esse desvio fosse igual ao factor de correcção. Parece-nos legítimo imaginar que os pilotos se interrogassem sobre as vantagens de uma agulha de marear que não apontava para a flor-de-lis. Por outro lado esta situação deveria originar muitas interrogações sobre os rumos/proas a tomar. Serão precisamente este tipo de interrogações que mais tarde vão dar origem ao aparecimento dos “resguardos”, que constituíam correcções que os pilotos incorporavam nas rotas que navegavam, isto de forma a corrigir as variações (o nordestear ou o noroestear) das agulhas.

 

Continuemos a navegar para Oeste, mas com a declinação a ficar igual a 6 graus Oeste após mais uns dias de navegação.

 

lis6.png

Fig. Nº37 – Ferros fora da flor-de-lis

 

 

lis7.png

 

Fig. Nº38 – Ferros fora da flor-de-lis

 

Os pilotos desconheciam o facto de que neste caso particular (fig. nº22) o erro na utilização da agulha com os ferros fora da flor-de-lis era bem mais significativo do que se utilizassem uma agulha com os ferros na flor-de-lis. Como desconheciam o fenómeno da declinação magnética (a existência de um norte magnético distinto do norte geográfico) só podiam aperceber-se das vantagens e desvantagens das agulhas de marear através dos resultados obtidos com a utilização das mesmas agulhas.

 

Neste último exemplo, mais uma vez fica evidente que a visualização e compreensão do fenómeno da variação da agulha com os ferros fora da flor-de-lis seria mais difícil ou menos evidente.

 

Conclusão

As agulhas genovesas, flamengas, francesas e alemãs seriam seguramente as mais utilizadas na navegação costeira ou de cabotagem na Europa durante os séculos XIV e XV. As técnicas de navegação utilizadas até então não sofriam qualquer tipo de impacto negativo pelo facto de existir o fenómeno da variação da agulha, era uma navegação visual, que assentava fundamentalmente na identificação de pontos de referência em terra. Por outro lado, sendo as agulhas feitas na Europa e sendo as viagens na sua maioria feitas em águas europeias, a declinação variava muito pouco pelo que a variação das agulhas, caso alguém estivesse atento, seria de muito difícil detecção.

 

Só em meados do século XV, com as viagens para os Açores e a volta da Mina, ambas iniciadas pelos marinheiros portugueses, é que estariam reunidas as condições que permitiriam aos pilotos observar o fenómeno da variação das agulhas.

 

Com o nascimento no século XV da prática da navegação astronómica nos navios portugueses, através da utilização da Polar e do Sol, passou a ser necessário conhecer as passagens meridianas destes dois astros, com o objectivo de cálculo de latitudes.

 

Assumimos que terá sido precisamente na observação dos momentos das passagens meridianas (e também da aplicação dos Regimentos da Polar), que os pilotos de então se aperceberam que não só o norte geográfico não era coincidente com o norte da agulha como esta diferença era variável com os locais por onde os navios navegavam.