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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

6.2 - As Agulhas de Marear segundo João de Lisboa

24.03.16

Como já referimos, conhecida a direcção do norte geográfico e se a declinação magnética local fosse diferente de zero, era possível verificar que a agulha nãoestava fixa” nos pólos, o norte geográfico não estava na mesma direcção da agulha. Isto significa que as agulhas “noroesteavam” (desviavam para oeste) ou “nordesteavam” (desviavam para leste) em relação à flor-de-lis (ferros fora da flor-de-lis) ou em relação ao norte geográfico (ferros na flor-de-lis).

 

Recordemos a seguinte regra: se a declinação é leste então o norte magnético está para leste do norte geográfico, se a declinação for oeste então o norte magnético está para oeste do norte geográfico.

 

Afirma João de Lisboa logo no início do Tratado da Agulha:

 

 ““Primeiramente hás-de saber que as agulhas todas, assim genovezas como flamengas, nordesteam e noroesteam segundo o lugar onde estão…porém hás de saber que umas [agulhas] fazem mais afastamento que outras, por serem feitas umas mais orientais e outras mais ocidentais

 

Vejamos o que João de Lisboa pretende transmitir:

 

“……. feitas umas mais Orientais” (nordesteam)          

 

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   “……feitas outras mais Ocidentais” (noroesteam)

 

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João de Lisboa refere-se claramente às agulhas com os ferros ferrados fora da flor-de-lis quando diz por serem “feitas umas mais orientais e outras mais ocidentais”, além de as definir como sendo genovesas ou flamengas, ora sabemos que as agulhas com esta origem utilizavam os ferros fixos fora da flor-de-lis.

 

Uma agulha de ferros ferrados na flor-de-lis noroesteava, em 1500, cerca de 9º Leste, se estivesse em Génova. Se viajasse para Lisboa essa mesma agulha continuaria a noroestear, mas por cerca de 5º Leste, valor estimado para a declinação de Lisboa na época.

 

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Fig. nº26 – Saindo de Génova para Sul

 

Assim sendo, se uma embarcação saísse de Génova a navegar por um rumo inicial na rosa de 180 º (figura nº 26), na realidade o seu rumo verdadeiro seria de 189 º (+ 9º Este).

 

Ao aproximar-se de Lisboa (figura nº 27), se navegasse pela agulha para norte (360º) na realidade estava a navegar por 005º (+ 5º Leste).

 

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Fig. nº27 – Chegando a Lisboa

 

O mesmo já não se passa com as agulhas com os ferros ferrados fora da flor-de-lis. O afastamento que apresentam em qualquer momento é sempre igual ao valor da correcção que foi aplicada no local de construção e montagem da agulha (apontando a flor-de-lis na direcção dos pólos nesse local), daí João de Lisboa afirmar que existem agulhas que “fazem mais afastamento que outras por serem feitas umas orientais outras ocidentais”.

 

Repliquemos então a mesma situação anterior agora para o caso de agulhas com os ferros ferrados fora da flor-de-lis (agulha genovesa com um factor de correcção oposto à declinação local que é de 9º leste).

 

Neste caso, se uma embarcação saísse de Génova a navegar por um rumo inicial na rosa de 180 º (figura nº 28), na realidade o seu rumo verdadeiro seria também de 180º, situação que se manteria enquanto a declinação magnética se mantivesse igual a 9º leste (isto porque o efeito de correcção permanente igual a -9 graus tinha sido aplicado).

 

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Fig. nº28 – Saindo de Génova para Sul

 

Ao aproximar-se de Lisboa (figura n. 29), se navegasse pela agulha para norte (360º) na realidade estava a navegar por 356º (+ 5 graus Leste – 9 graus correcção = - 4 graus).

 

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Fig. nº29 – Chegando a Lisboa

 

No quadro seguinte tentamos representar, numa versão muito simplificada, uma hipotética viagem de Génova para Lisboa comparando os rumos verdadeiros para cada um dos dois tipos de agulha.

 

Nota:

Ferros na flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W)

Ferros fora da flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W) + factor de correcção (-9)

 

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Da comparação do quadro anterior concluímos de imediato o seguinte: a diferença nos rumos verdadeiros entre as agulhas com ferros na flor-de-lis e as agulhas com ferros fora da flor-de-lis é exactamente igual (como é evidente) ao factor de correcção ou ângulo permanente entre os ferros e a flor-de-lis.

 

A afirmação de João de Lisboa segundo a qual existem agulhas que “fazem mais afastamento que outras por serem feitas umas orientais outras ocidentais” fica assim perfeitamente justificada.

 

Quando João de Lisboa fez esta afirmação o fenómeno do noroestear e do nordestear das agulhas já era perfeitamente conhecido. Não se conheciam as razões para a sua existência mas o fenómeno era conhecido. Ao contrário das agulhas com os ferros na flor-de-lis, as que tinham os ferros afastados da flor-de-lis de acordo com a declinação magnética que se observava no local de construção das mesmas agulhas, eram orientais ou ocidentais de acordo com o sinal da correcção (E ou W) implementada. Logo o afastamento observado ao longo das viagens seria obviamente afectado por esta correcção.

 

Nas agulhas com os ferros na flor-de-lis o afastamento era nulo quando se navegava em zonas de declinação magnética nula, mas nas agulhas com os ferros fora de flor-de-lis, na mesma situação o afastamento seria exactamente igual ao factor de correcção.

 

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Fig. nº30 – Agulha com os ferros fora da flor-de-lis em Génova (ano 1500)

 

Na figura nº 30 está representada a agulha com o factor de correcção para cancelamento da declinação magnética em Génova. Na figura nº 31 está representada a mesma agulha mas numa zona de declinação magnética nula (linha agónica). O afastamento observado é de facto igual à correcção implementada no lugar de construção e montagem da agulha.

 

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Fig. nº31 – A mesma agulha numa zona de declinação nula