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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

6.3 - Ferros ferrados na flor-de-lis

05.04.16

Alguma razão, ou um somatório de várias razões, terá contribuído para a ideia de evoluir para um tipo de agulhas de marear com os ferros fixos na rosa de forma que a flor-de-lis estivesse sempre alinhada com a agulha magnética. Foi esta a opção adoptada pelos Portugueses eventualmente ainda no século XV sendo de utilização corrente no século XVI. Estamos profundamente convencidos que o início da utilização do Sol na navegação astronómica terá tido um papel preponderante nesta opção dos construtores portugueses de agulhas de marear.

 

Vejamos o que diz o espanhol Alonso de Santa Cruz, famoso cartógrafo espanhol do Século XVI que visitou Portugal em 1545, na sua obra “Libro de Longitudes” (publicada em 1555) sobre o facto de os pilotos espanhóis utilizarem agulhas com ferros ferrados fora da flor-de-lis ao contrário dos pilotos portugueses que utilizavam agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis.

 

“ [comparando com os portugueses] lo que no hacen los pilotos [espanhóis] que navegan el poniente, por llevar los hierros debaxo da la rosa media quarta más al levante de la flor de lis de las 32 em que está repartida el aguja que es la diferança que la aguja hace hacia al nordeste de Sevilla”.

 

Alonso de Santa Cruz diz que os pilotos espanhóis que navegavam para as Índias Ocidentais [poniente] com agulhas com ferros ferrados fora da flor-de-lis, iniciavam as suas viagens (de Sevilha, Huelva, etc.) com a ponta norte da agulha a apontar [por llevar los hierros debaxo da la rosa] para levante (leste, oriente, nascente) com um desvio em relação à flor-de-lis (norte do cartão da rosa-dos-ventos) igual a cerca de 5,625 graus [media quarta más al levante de la flor de lis de las 32 em que está repartida el aguja]. Este ângulo seria o valor da declinação magnética (5,625 graus Leste) que seria observado em Sevilha naquela época por quem montava e instalava as agulhas de marear.

 

Na figura nº 32 tentamos ilustrar esta situação não respeitando a escala face ao ângulo (meia quarta) para tornar a figura mais legível.

 

Agulha1.png

 Fig. Nº32 – À saída de Sevilha

 

Mas Alonso de Santa Cruz disse mais ainda:

 

es que los portugueses traen más verdad y que lo han notado más curiosamente, porque llevan los hierros cebados debajo da la flor de lis de la rosa del aguja u asi há lugar de hacerse mejor las consideraciones…

 

Alonso de Santa Cruz basicamente diz que os portugueses, por utilizarem os ferros ferrados na flor-de-lis, obtinham melhores resultados com a utilização das suas agulhas, isto em comparação com os marinheiros espanhóis. Em que se baseava o espanhol para fazer esta afirmação?

 

Seguidamente apresentamos uma tabela que tenta representar uma hipotética viagem com a duração de 30 dias de Sevilha a um porto das Caraíbas em meados do século XVI. Considerámos a declinação à saída de Sevilha como sendo igual a seis graus Oeste, e utilizámos os valores estimados para a declinação magnética da época ao longo da travessia do Atlântico. Os rumos da agulha são absolutamente hipotéticos, não considerando as normais singraduras dos navios da época, assim sendo tentámos utilizar valores médios para os rumos. Fizemos a comparação dos rumos verdadeiros caso tivéssemos optado entre utilizar uma agulha com os ferros na flor-de-lis ou uma agulha com ferros fora da flor-de-lis (como era o caso dos navios espanhóis).

 

Nota:

Ferros na flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W)

Ferros fora da flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W) + factor de correcção (-6)

 

 

Agulha2.png

 

 

Como se pode facilmente observar, após uma fase inicial de menor erro, a agulha com os ferros fora da flor-de-lis começa a apresentar erros de grandeza muito superiores aos apresentados pela agulha com os ferros na flor-de-lis, isto porque houve uma mudança de sinal, ou seja a declinação que era Oeste à saída de Sevilha passou a ser de leste a partir de certa altura durante a travessia do Atlântico. Nos primeiros dias os erros nos rumos acabam por se anular entre si mas mudando o sinal da declinação então os erros das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis passam a ser muitos mais significativos.

 

Como conclusão, podemos afirmar que as agulhas de ferros fora da flor-de-lis eram muito eficazes enquanto a declinação não variasse ou variasse pouco, o factor de correcção implementado no local de construção/montagem da agulha anulava a declinação magnética, daí resultando a navegação por rumos verdadeiros. No entanto, assim que a declinação variasse significativamente ou de sinal, os resultados deterioravam-se rapidamente com consequências bem visíveis para a navegação estimada.

 

Em termos práticos, à saída de Sevilha os pilotos espanhóis verificavam que as agulhas apontavam correctamente em direcção ao Norte mas, nos seus destinos nas Caraíbas, as agulhas “afastavam-se” do Norte (noroesteavam) em mais de uma quarta, o dobro do que se observava nas agulhas com os ferros na flor-de-lis.

 

Esta situação era muito visível nas travessias do Atlântico com destino às Caraíbas, dada a contínua alteração da declinação magnética ao longo dessa travessia, pensamos que seja esta a razão principal para a afirmação es que los portugueses traen más verdad ……… asi há lugar de hacerse mejor las consideraciones…”.