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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

6.5 - Evolução para as agulhas com ferros ferrados na flor-de-lis

06.04.16

Regressemos ao Tratado da Agulha de Marear no ponto em que João de Lisboa apresenta o seguinte raciocínio:

 

“…e porque os antigos não sentiram esta variação, andavam mudando os ferros das agulhas fora da flor de liz, para que naqueles meridianos onde as cevavam fossem fixas nos pólos do mundo; e por esta razão achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas”.

 

Esta afirmação de João de Lisboa é composta por várias componentes. Identifica a existência de uma variação, fala das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis e identifica-as como causadoras de erros na qualidade da cartografia da época.

 

Variação

 

A variação aqui identificada por João de Lisboa é descrita também pelo mesmo desta forma:

 

“…se forem do meridiano vero [suposto meridiano onde a declinação magnética seria zero] para o oriente fazem conhecimento para nordeste tanto quanto vos dele afastais seguindo do meridiano para o ocidente fazem conhecimento para noroeste… a isto se chama noroestear e nordestear”.

 

Esta afirmação contém o suporte fundamental da (falsa) teoria de João de Lisboa segundo a qual a longitude estaria directamente relacionada com os desvios que as agulhas sofriam em relação ao norte geográfico (pólos fixos). Ora, segundo João de Lisboa, os antigos não sentiram esta variação, continuando a utilizar agulhas de marear com ferros fora da flor-de-lis. João de Lisboa parece dar uma indicação que o conhecimento do fenómeno do noroestear e nordestear das agulhas esteve directamente relacionado com a ideia que então surgiu em Portugal, de ferrar os ferros de forma a estes ficarem coincidentes com a flor-de-lis.

 

As agulhas com os ferros fora da flor-de-lis cancelavam o efeito da declinação local quando era efectuado o cevar das agulhas, originando a navegação por rumos verdadeiros enquanto a declinação magnética se mantivesse constante. Com a variação da declinação magnética com o local e com a data, o noroestear e nordestear das agulhas também se detectava, mas os rumos verdadeiros estavam afectados pela correcção inicial (umas mais ocidentais, outras mais orientais) que era efectuada na operação de construção e montagem da agulha (a flor-de-lis ficava a apontar para o norte geográfico), pelo que os resultados da navegação estimada dos pilotos eram forçosamente diferentes.

 

Nas agulhas de ferros fixos ou ferrados na flor-de-lis, o noroestear e nordestear era em relação à flor-de-lis, e segundo João de Lisboa era possível através de leitura directa calcular a longitude.

 

Antigos

 

 “…e porque os antigos não sentiram esta variação, andavam mudando os ferros das agulhas fora da flor de liz”.

 

Em relação a esta afirmação podemos concluir que “assim que os antigos sentiram esta variação, deixaram de mudar os ferros fora de flor-de-lis”?

Na tentativa de responder a esta nossa interrogação, destacamos o capítulo VII do Tratado, “Regra para saberes cevar a tua agulha de marear”, onde é dito o seguinte:

 

saberei que para cevar a agulha perfeitamente, conforme aos padrões de Portugal, há-de ter os ferros da rosa no meio da flor-de-lis, e não afastados dele coisa alguma, como tem algumas que se fazem em Flandres, que não são certas…..”

 

É interessante a observação que o João de Lisboa faz sobre a existência de “padrões de Portugal” em relação aos ferros da rosa, facto confirmado em absoluto pelo espanhol Alonso de Santa Cruz quando afirma “lo que no hacen los pilotos [espanhóis]”.

 

Para João de Lisboa a conclusão era simples e óbvia

 

  • Nas agulhas de ferros fixos ou ferrados na flor-de-lis, após a operação de cevar, se a agulha noroesteasse ou nordesteasse em relação aos pólos fixos, então a longitude onde se encontrava a embarcação estava proporcionalmente afastada do meridiano Vero, se pelo contrário a agulha estivesse fixa nos pólos então a embarcação estava no meridiano Vero. Esta regra mantinha-se ao longo do tempo em que se utilizava a agulha na navegação da embarcação, até nova operação de cevar.

 

  • Nas agulhas com os ferros fora da flor-de-lis, a rosa-dos-ventos era orientada de forma que a flor-de-lis apontava em direcção ao norte geográfico com um ângulo face à agulha que respeitava o desvio (declinação) observado localmente no local de construção e montagem da agulha. O cálculo da longitude ficava comprometido ou difícil de efectuar (não era directo), obrigava a que fosse considerado o factor de correcção.

 

Costas Falsas

 

Voltaremos a este assunto mais adiante neste trabalho mas gostaríamos de abordar este tema utilizando o que João de Lisboa diz no capítulo I do Tratado.

 

e em a flor de lis se hão de pôr os ferros sem tomar de nordeste nem de noroeste; porque costumavam alguns, como dito é, fora da flor de liz por uma quarta ou duas ou mais, segundo era fora do meridiano fixo

 

João de Lisboa identifica agulhas de marear cujos ferros chegavam a estar ferrados fora da flor-de-lis em ângulos superiores às duas quartas. Esta e outras observações irão ser alvo de um estudo mais detalhado.

 

Concluímos dizendo que parece ter existindo uma sequência de eventos que se inicia com a detecção de que as agulhas noroesteavam e nordesteavam com a navegação em longitude, que prossegue com a percepção que a longitude estaria proporcionalmente relacionada com o noroestear e nordestear, e que se conclui com a utilização generalizada da agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis de forma a evitar as deficiências das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis. Segundo João de Lisboa, com a utilização de agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis o cálculo da longitude era simples e directo, bastava medir a variação local apresentada pela agulha.