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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

7.1 - Agulhas de marear com padrão português

08.04.16

A declinação magnética seria do conhecimento dos portugueses seguramente já no século XV, mas só existem referências seguras sobre a sua observação e medição no início do século XVI.

 

Nos oceanos navegados pelos portugueses no início do século XVI e de acordo com vários modelos de cálculo da declinação magnética, esta atingiria valores máximos que chegariam a ultrapassar os 20 graus oeste no Índico (nomeadamente no Mar Arábico) e valores máximos idênticos, mas com desvio para leste, no centro do Atlântico Sul. Isto significa que as agulhas “noroesteavam” (no Mar Arábico) e “nordesteavam” (no centro do Atlântico Sul) por valores que poderiam ultrapassar os 20 graus.

 

Em Portugal usavam-se agulhas genovesas, flamengas, francesas e portuguesas. Aparentemente, a partir de determinada altura (finais do século XV?) as agulhas utilizadas pelos portugueses passaram a ter os ferros ferrados na flor-de-lis, com ponta norte da agulha a apontar na direcção Norte-Sul dos ferros (o norte magnético) e coincidente com o norte da rosa-dos-ventos (a flor-de-lis) desenhado no cartão.

 

No capítulo VII do Tratado da Agulha de Marear, “Regra para saberes cevar a tua agulha de marear”, é dito o seguinte:

 

saberei que para cevar a agulha perfeitamente, conforme aos padrões de Portugal, há-de ter os ferros da rosa no meio da flor-de-lis, e não afastados dele coisa alguma, como tem algumas que se fazem em Flandres, que não são certas…..”

 

Através deste texto João de Lisboa confirma que (pelo menos) no início do século XVI a utilização de agulhas com ferros ferrados na flor-de-lis era comum a bordo das embarcações portuguesas (conforme os padrões). Mas no passado não terá sido assim.

 

Isto mesmo é confirmado por João de Lisboa quando afirma, logo no início do tratado,

 

“…e porque os antigos não sentiram esta variação, andavam mudando os ferros das agulhas fora da flor de liz, para que naqueles meridianos onde as cevavam fossem fixas nos pólos do mundo; e por esta razão achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas”.

 

Diz também João de Lisboa:

 

porque costumavam alguns [os antigos], como dito é, tirá-los [os ferros] fora da flor-de-lis por uma quarta e duas e mais, segundo era [a flor-de-lis] fora do meridiano fixo ”.

 

A variação aqui identificada é a declinação magnética, o facto do desvio da agulha (face ao norte geográfico) variar de acordo com os locais por onde se navegava, fenómeno que João Lisboa conhecia, apesar de não o compreender. Os antigos não conheciam esse fenómeno. Por outro lado utilizavam agulhas de marear com ferros ferrados fora da flor-de-lis.

 

Quem eram os antigos?

 

João de Lisboa navegava por mares já totalmente dominados pelos portugueses e as cartas de marear que utilizava seriam seguramente cartas “rumadas” (eventualmente já com escala de latitudes) desenhadas por cartógrafos portugueses tendo como base inicial de desenho as cartas-portulano do Mediterrâneo, sobre as quais estes mesmos cartógrafos fizeram incidir as informações e os dados recolhidos durante quase 100 anos, desde as primeiras navegações portuguesas ao longo da costa norte de África em direcção ao Sul (e incursões no Atlântico com a descoberta e povoamento da Madeira e dos Açores).

 

Seguramente antes de 1450 já os pilotos portugueses (antigos) forneciam aos cartógrafos do Reino informação que ia permitindo a estes último desenhar as costas – “e por esta razão achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas” – nas cartas de marear portuguesas de então.

 

Sendo a quarta igual a 11.25 graus, é interessante notar que João de Lisboa identifica desvios que podem ultrapassar de forma visível os 20 graus (duas quartas = 22.5 graus), constatação que nos vai levar a revisitar este assunto mais adiante.

 

Fazemos esta referência específica porque concluímos que noutras partes do Tratado se fazem referências a “quartas” de modelos mais antigos de agulhas de marear, modelos de 16 rumos e não de 32 rumos, de certa forma confirmando que a versão mais antiga do Tratado da Agulha de Marear que conhecemos agrega diversas fontes numa época de transição de modelos de agulha de marear (passagem de 16 para 32 rumos) daí os diversos significados que a “quarta” parece tomar ao longo do Tratado (tal como o conhecemos).

 

 

No Capítulo II – “Da maneira como se há-de fazer a caixa”, é dito que “Esta caixa há-de ser terçada toda por dentro da redondeza, por cima e por baixo, em 32 partes iguais, para que estas quartas respondam às quartas da rosa”. João de Lisboa identifica claramente a clássica divisão da rosa em 32 quartas neste Capítulo.