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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

7.2 . A Volta do Largo - primeiros indícios de existência da variação da agulha?

08.04.16

Desde o século XIV que os marinheiros portugueses navegavam ao longo da costa africana até ao arquipélago das Canárias, já então sobejamente conhecido. Quanto mais para Sul se navegava mais complicada era a viagem de regresso pois quer os ventos quer as correntes eram contra (fig. nº 40).

 

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Fig. Nº40 – Correntes e ventos dominantes nas Canárias, Açores e Madeira.

 

É fácil deduzir que o descobrimento da Madeira (1418) e dos Açores (1425) está directamente relacionado com o regresso das expedições portuguesas das viagens de exploração do norte de África, nomeadamente as que se dirigiam às Canárias. Com o passar dos anos foi naturalmente aumentando o conhecimento sobre os ventos e as correntes e percebeu-se que o regresso a Portugal seria muito mais fácil através de uma volta de mar (que mais tarde iria dar origem à Volta da Mina) que levasse as embarcações para oeste até à longitude dos Açores, navegando então para norte até alcançar a latitude deste arquipélago e daí navegando para levante até se atingir a costa de Portugal.

 

Em 1434 Gil Eanes dobra o Cabo Bojador e as voltas de mar cada vez se fazem mais ao largo, conforme mais se navegava para sul, chegando esta volta eventualmente a atingir os 40º Oeste de Longitude.

 

É interessante notar que em 1452 as ilhas das Flores e do Corvo são descobertas, o que nos permite concluir que por essa altura os processos de navegação associados à volta pelo largo já estavam sobejamente amadurecidos. Convém também referir que o povoamento dos Açores (Santa Maria) só se iniciou em 1439 apesar de ter sido descoberto doze anos antes, mostrando claramente a dificuldade em navegar de forma rotineira para este arquipélago. A solução passava seguramente por viagens iniciadas com rotas para o sul, eventualmente até com escala na Madeira. (fig. nº41).

 

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Fig. Nº41 – Rotas de regresso a Portugal

 

Tendo em consideração a passagem do Cabo Bojador em 1434 e o início do povoamento dos Açores em 1439, podemos então com muito segurança estabelecer que a meio do século XV as viagens pelo largo, de regresso a Portugal, já eram uma prática normal na época.

 

O esforço inicial português na exploração da costa africana teve participação apreciável dos genoveses, especialmente no que respeita às expedições às Canárias.

 

As agulhas de marear utilizadas nas nossas embarcações seriam seguramente genovesas, com ferros ferrados fora da flor-de-lis por um ângulo provavelmente igual a meia quarta visto a declinação em Génova ser cerca de seis graus leste.

 

Na viagem de regresso a Portugal, a volta pelo largo que os portugueses introduziram, nomeadamente quando se atingia o limite em termos de longitude, as proas dos navios várias vezes seriam na direcção de Norte. Nas singraduras em que as proas fossem exactamente Norte (360º), um piloto mais atento, através de simples observação visual, teria notado que o norte da agulha (ou a flor-de-lis) não coincidia com a estrela Polar (mesmo não tendo em conta o seu regimento). De facto, nas proas para norte, a declinação magnética seria nula ou mesmo de Oeste pelo que a diferença entre a proa (360º) e o norte geográfico poderia ser quase igual a uma quarta.

 

Vejamos um quadro muito resumido, de comparações de rumos de agulha com rumos verdadeiros, de uma hipotética viagem da Lisboa às Canárias com regresso a Lisboa por volta pelo largo, utilizando uma agulha genovesa com um factor de correcção igual a 6º.

 

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A flor-de-lis e os ferros fariam um ângulo entre si igual a seis graus, que é o valor estimado da declinação em Génova para a época (séc. XV), fig. nº 42.

 

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 Fig. Nº42 – Agulha Genovesa com compensação para seis graus leste (séc. XV)

 

Em Lisboa, após instalada a agulha a bordo, utilizando a mesma como referência, podia ser observado o seguinte:

 

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Fig. Nº43 – Agulha Genovesa com compensação para seis graus leste (séc. XV), em Lisboa

 

Tendo como referência a flor-de-lis (figura nº 44) poderíamos observar que a Polar (norte geográfico) culminava ligeiramente à direita, e a ponta norte da agulha apontava ainda mais para a direita (devido ao factor de correcção incorporado em Génova, seis graus).

 

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Fig. Nº44 – Agulha Genovesa com compensação para seis graus leste (séc. XV), em Lisboa

 

Nas proas a norte, quando a declinação era nula ou mesmo de Oeste (dependia da longitude atingida na volta pelo largo), o rumo verdadeiro afastava-se da agulha cerca de 8 graus, cerca de ¾ de quarta. Estando a Polar a uma altura situada no intervalo [20º, 40º], de acordo com a latitude, seria muito fácil observar visualmente que a Polar se encontrava por estibordo quase uma quarta. (fig. nº45)

 (ângulos exagerados para facilidade de leitura)

 

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Fig. Nº45 – Agulha Genovesa com compensação para seis graus leste (séc. XV), a 40º Oeste de Longitude, latitude dos Açores, navegando para Norte, declinação 2º Oeste

 

Mesmo considerando que fosse ignorado pelos pilotos que a Polar não estava exactamente situada no norte geográfico, o ângulo de afastamento da Polar (do Norte Geográfico) face à proa navegada seria sempre possível de ser observado. É evidente que este processo de avaliação visual seria mais correcto, quanto às conclusões alcançadas, se fosse conhecido o momento da passagem meridiana da Polar, isto porque em termos práticos a Polar descrevia um círculo no céu, em torno do Norte Geográfico, com um raio aproximadamente igual a 3.5 graus (figura nº45). Como já foi dito, esse facto só foi considerado nos cálculos náuticos com o aparecimento dos regimentos da Polar. São conhecidos diversos Regimentos do século XVI, mas não se conhece qualquer referência ao assunto em textos anteriores ao mesmo século. Apesar deste facto, podemos afirmar que a utilização de regimentos da Polar é seguramente muito anterior ao século XVI.

 

Claro que através da passagem meridiana do Sol seria também possível obter uma ideia muito concreta sobre a variação da agulha mas a utilização do Sol na navegação astronómica só deverá ter começado no último quartel do século XV, portanto uns trinta ou quarenta anos depois do início da utilização das voltas pelo largo. A vantagem de observar a Polar quando a embarcação navegava para norte (ou para sul) residia no facto de ser um processo muito simples, expedito, visual, sem recurso a cálculos ou conhecimento mais apurado.

 

A constatação que a Polar não estava alinhada com a proa (direcção) da embarcação quando esta supostamente navegava para norte, numa primeira instância teria sido efectuada de forma inadvertida, mas certamente que se terá transformado num processo corrente através de sucessivas e continuadas observações. Mais tarde, com a introdução dos regimentos da Polar, os pilotos passariam a ter um processo mais rigoroso que lhes iria permitir, através de continuadas observações da Polar, concluir pela existência de um afastamento angular entre as agulhas e o norte geográfico, variável de acordo com o local de observação.

 

Parece-nos correcto afirmar que seguramente vários pilotos terão observado este fenómeno, que era mais evidente quanto mais para oeste fosse efectuada a volta pelo largo.

 

Em conclusão, diremos que o fenómeno da existência da declinação magnética poderá ter sido observado pelos pilotos portugueses de forma evidente e consistente a partir de 1440 com a introdução da volta pelo largo, isto cerca de 50 anos antes de Colombo, a quem usualmente é atribuído o primeiro testemunho sobre o fenómeno (o noroestear e nordestear das agulhas).