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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

8.1 - Rumos Magnéticos

12.04.16

As cartas de marear dos séculos XV e XVI não utilizavam qualquer método explícito de projecção cartográfica, a superfície da Terra era considerada como plana e na carta eram marcados os rumos magnéticos e as distâncias navegadas nesses rumos, daí a denominação de cartas rumadas. As primeiras cartas de marear utilizadas pelos portugueses foram evoluções das cartas-portulano do Mediterrâneo que os portugueses começaram a utilizar provavelmente ainda no reinado de D. Diniz.

 

Nestas cartas não se detectam escalas para latitude e longitudes, no entanto existe uma escala, em léguas, para as distâncias.

 

O cálculo da posição estimada da embarcação era fortemente condicionado por diversas componentes. Por um lado, existia o problema do cálculo da velocidade no mar (face ao fundo). Os métodos utilizados não levavam em linha de conta a velocidade das correntes marítimas e ainda eram afectados pelo deficiente sistema de mediação de tempos (ampulheta). Finalmente, os rumos navegados eram magnéticos e não verdadeiros, mas isso era um facto desconhecido na altura.

 

Como já identificámos, no século XV a declinação magnética em Portugal e na costa norte de África era relativamente pequena, não devendo exceder os 3º Leste até ao arquipélago de Cabo Verde.

 

Assumindo que no século XV as embarcações portuguesas utilizavam agulhas genovesas com um factor de correcção igual a seis graus (leste), podemos verificar que as diferenças entre os rumos verdadeiros e os da agulha não deveriam ultrapassar a meia quarta (~ seis graus) contribuindo seguramente para a reconhecida boa qualidade da cartografia portuguesa de então (fig. nº 46).

 

 

Cart1.png

 

Fig. Nº 46 – Navegando ao longo da costa norte de África

 

Se o factor de correcção fosse nulo, portanto com os ferros fixos na flor-de-lis, os valores obtidos ainda seriam melhores (fig. nº 47). A aproximação aos rumos verdadeiros ainda seria mais notória, com desvios muito próximos de zero. Esta questão é muito importante pois vai permitir-nos introduzir o tema dos “resguardos”, que eram compensações inseridas pelos pilotos nas rotas navegadas.

 

Cart2.png

 Fig. Nº 47 – Navegando ao longo da costa norte de África

 

Não deve esquecido o efeito resultante das operações de cevar que se efectuavam a bordo. Ao serem magnetizados os ferros, a agulha alinhava naturalmente com o norte magnético do local. Para as agulhas alinhadas com a flor-de-lis em termos de navegação isso apenas se reflectia na robustez das indicações da agulha (ferros de novo magnetizados). Para as agulhas com os ferros não alinhados com a flor-de-lis, em cada operação de cevar a flor-de-lis era alinhada com o norte verdadeiro, logo novo factor de correcção era implementado (equivalente ao local onde o navio se encontrava).

 

Os pilotos registavam as rotas (singraduras) e as velocidades estimadas, calculavam as suas posições estimadas, e era este conjunto de dados que no regresso a Portugal era dado aos cartógrafos que desenhavam novas cartas através da nova informação que os pilotos recolhiam. Este trabalho de recolha sistemática de informação que era incorporada nas cartas de marear atravessou todo o século XV acompanhando as descobertas portuguesas que se dirigiam para sul, rumo ao Cabo da Boa Esperança.

 

Recuperemos as seguintes afirmações de João de Lisboa:

 

“…e porque os antigos não sentiram esta variação, andavam mudando os ferros das agulhas fora da flor de liz, para que naqueles meridianos onde as cevavam fossem fixas nos pólos do mundo; e por esta razão achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas”. 

 

porque costumavam alguns [os antigos], como dito é, tirá-los [os ferros] fora da flor-de-lis por uma quarta e duas e mais, segundo era [a flor-de-lis] fora do meridiano fixo ”.

 

Em Portugal usavam-se agulhas genovesas, flamengas, francesas, alemãs (e portuguesas), originárias de locais onde no século XV a declinação magnética seria aproximadamente igual a 6 graus leste, eventualmente no máximo 8 graus leste. Portanto entre a meia e os 2/3 de quarta.

Achamos a observação de João de Lisboa razoável quando diz “ duas e mais quartas fora da flor-de-lis”, pensamos que João de Lisboa concluiu que se “achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas” então os ferros estavam fora da flor-de-lis por igual ângulo. Mas sendo o factor de correcção igual à declinação magnética do local de construção e montagem da agulha de marear ou dos locais onde as agulhas eram cevadas, compreende-se que esse factor possa ter sido superior a 20 graus quando os valores da declinação eram dessa ordem de grandeza.