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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

8.2 - Resguardos

12.04.16

Recuperemos de novo a obra “Libro de Longitudes” do espanhol Alonso de Santa Cruz quando ele diz o seguinte:

 

Y asi fueron entendiendo poco a poco que cantidad de grados y quartas de aguja era y conforme a ello procuraron de dar resguardos a la aguja conforme a las derrotas que hacian para llevar mas certidumbre en las navegaciones que hacian, el cual trabajo non teniam los que navegaban por el Mediterráneo, porque en las cartas que teniam hechas por derrotas iba dado en ellas los talles resguardos de nordesteamientos”.

 

Com esta explicação Alonso Santa Cruz esclareça duas questões muito importantes:

 

  1. A tentativa de corrigir os rumos da agulha (para verdadeiros) a bordo através de “resguardos” e,
  2. O efeito que esses mesmos resguardos tinham sobre a cartografia pois os pilotos forneciam aos cartógrafos as derrotas (rumos) já com os resguardos incluídos.

 

Importa portanto reter que Alonso de Santa Cruz afirma que os pilotos que navegavam no Mediterrâneo não necessitavam de considerar qualquer resguardo nas suas rotas pois as cartas que utilizavam tinham sido desenhadas precisamente considerando esses resguardos.

 

 

Carta de Jorge de Aguiar

 

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Fig. 48 – Excerto da carta de Jorge de Aguiar (1492), com rede de meridianos e paralelos.

(Imagem retirada da comunicação apresentada na Academia de Marinha pelo Académico Correspondente Capitão-de-Mar-e-Guerra EHO Joaquim Alves Gaspar, em 3 de Junho de 2008)

 

A carta portuguesa mais antiga que se conhece assinada e datada está arquivada na Yale University, em New Haven (EUA) [fig. nº48]. É de 1492 e o seu autor é Jorge de Aguiar. É um exemplo de uma carta rumada. Existem paralelos e meridianos mas não se detectam escalas para latitude e longitudes. No entanto interpolando as redes geográficas de meridianos e paralelos implícita à representação, obteve-se como resultado que esta rede aparece rodada para a esquerda, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, uma característica comum a todas as cartas-portulano até ao século XVIII. O ângulo médio de rotação é de 8º, valor que está de acordo com o que hoje conhecemos sobre o valor declinação magnética no Mediterrâneo, durante o século XV.

 

Imaginemos (fig. nº49) que uma embarcação parte de uma posição conhecida (a). Navega durante um determinado período de tempo pela proa norte magnético (360º) até chegar a um lugar desconhecido (b). O piloto comunica ao cartógrafo que navegou X léguas pelo rumo 360 º a partir de a. O cartógrafo desenha na nova carta (V1) o local b.

 

Se comparássemos a nova carta V1 assim obtida com as posições reais veríamos então que a carta estava “rodada” para a esquerda.

 

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Fig. 49 – Rumo e distância estimada transmitidas ao cartógrafo; posição real

 

 

Complicando um pouco o cenário, imaginemos (fig. nº50) que o mesmo piloto, na mesma embarcação, repete a viagem partindo da posição conhecida (a) mas desta vez utilizando uma agulha de marear com os ferros fixos fora da flor-de-lis precisamente oito graus para levante, isto por ser o valor da declinação magnética onde a agulha foi construída e montada. Navega X léguas com a flor-de-lis pela proa (360º - norte geográfico) e quando chega ao final desta singradura verifica visualmente que o ponto b está por estibordo embora na carta V1 a embarcação estivesse no local certo (no local onde o cartógrafo fez a correcção anterior, desenhando o local b).

 

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Fig. 50 – Navegando pela flor-de-lis e verificando discrepância com a posição real

 

 

Nestas condições, na próxima viagem que este piloto repetisse, iria considerar (mais correctamente estimar) um “resguardo” de oito graus (aproximadamente ¾ de quarta) para leste, governando por 008 graus e desta forma, apesar de na carta o rumo traçado fosse 360, iria aterrar em b governando por 008. A agulha “nordesteava” e o piloto compensava esse facto desta maneira. Assim, este piloto na próxima vez que estivesse com o cartógrafo, iria transmitir-lhe que era necessário corrigir a carta pois afinal para atingir o local b a partir de a era necessário navegar X léguas pelo rumo 008. Desta forma, o local b seria desenhado na sua posição real (carta V2).

 

Portanto b ficava a X léguas de a pelo azimute 008.

 

Numa futura viagem de a para b, usando a nova carta V2, o piloto já poderia verificar que o rumo para chegar a b era igual a 008 e já não necessitava de dar um resguardo.

 

Para concluir este conjunto de cenários, vamos agora imaginar nova viagem nos mesmos moldes, entre a e b, mas desta vez com a embarcação munida de uma agulha com os ferros ferrados na flor-de-lis. O piloto vai utilizar a carta mais recente, a V2, e verifica que para sair de a para b tem que navegar X léguas ao rumo 008.

 

Sabemos que:

 

Rumo Verdadeiro = Rumo Magnético + declinação (- W / + E)

 

Portanto

008 + 008 = 016, rumo verdadeiro.

 

Vejamos então a figura nº51:

 

Cart6.png

 

Fig. 51 – Navegando com ferros na flor-de-lis; verificando discrepância com a posição real

 

Apesar de colocarmos a posição do navio na carta em b, depois de navegarmos X léguas pelo rumo 008º, de facto podemos visualmente observar que o local b se encontra por bombordo, confirmando as palavras de João de Lisboa quando concluía que “achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas”.

 

O piloto teria que estimar um “resguardo” para uma próxima viagem, para bombordo, neste caso cerca de oito graus (navegar por 360 na agulha). 

 

Com os resguardos os pilotos tentavam aproximar os rumos magnéticos dos rumos verdadeiros, isto apesar de não conhecerem o fenómeno da declinação magnética. Aos rumos que retiravam das suas cartas de marear faziam incidir um resguardo equivalente ao noroestear ou nordestear das agulhas, desta forma aproximando a sua navegação dos rumos verdadeiros mas utilizando cartas desenhadas através de rumos e azimutes magnéticos.

 

Alguns pilotos forneciam aos cartógrafos os rumos já com os resguardos pelo que nesse caso as novas versões das cartas de marear aproximavam-se mais da realidade, os rumos magnéticos aproximavam-se dos rumos reais, pelo menos enquanto não se verificasse variações sensíveis da declinação magnética.

 

As cartas eram portanto desenhadas através de rumos magnéticos mais ou menos compensados com os resguardos conhecidos. Estas cartas tinham obviamente uma validade desde logo condicionado com a variação da declinação magnética no tempo, mas isso era desconhecido nos séculos XV e XVI. As posições reais não coincidiam com as posições carteadas mas as cartas cumpriam com as suas funções pois forneciam os rumos magnéticos que deveriam ser utilizados para se chegar ao destino.