Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

9.1 - Cabo das Agulhas

22.06.17

Em 27 de Junho de 1538, D. João de Castro chega ao Cabo das Agulhas vindo de poente, e no seu Roteiro de Lisboa a Goa relata a mesma chegada desta forma:

 

Este cabo das agulhas he o lugar onde ao pilotos tem por máxima que as suas agulhas lhe não varião cousa alguma, mas ferem directamente nos verdadeiros polos do mundo, e da qui veo chamarem a este promontorio cabo das agulhas, significando não fazerem já aqui nenhuma differença. Ao tempo que vimos a terra, eu me fazia a ré della 120 legoas, e o piloto 110

 

O topónimo «das Agulhas» surge primeira vez no planisfério dito de Cantino, de 1502, significando que os navegadores que por ali passaram antes da construção do planisfério, só poderão ter sido Bartolomeu Dias em 1488, Vasco da Gama em 1497, Pedro Álvares Cabral em 1500 e João da Nova em 1501. Um deles terá sido certamente o primeiro a verificar que o desvio das bússolas nesse lugar era nulo.

 

Bartolomeu Dias é seguramente o mais forte candidato a ter sido o primeiro a notar que as agulhas “estavam fixas nos pólos” naquela zona, e fundamentalmente por quatro motivos:

  1. Após a volta de mar que o levou eventualmente até aos 40º Sul, Bartolomeu Dias navegou para norte até chegar à actual Fish Bay (34º 17´Sul). Terá navegado cerca de 100 léguas (cerca de 4 dias de navegação) para norte, portanto em condições de verificar que o sol culminava na sua proa,
  2. Após a sua chegada a Fish Bay, Bartolomeu Dias percorreu a costa sul de África, primeiro para nascente e depois para poente, durante praticamente 4 meses, sempre numa zona de declinação nula ou muito pouco significativa, reconhecendo e visitando diversos lugares ao longo da mesma costa,
  3. Neste período de tempo, Bartolomeu Dias colocou dois padrões (São Gregório e São Filipe) na costa sul de África, seguramente calculando a latitude dos lugares onde os mesmos foram colocados,
  4. Com excepção da zona do Cabo da Boa Esperança, ao longo da restante viagem de Bartolomeu Dias as agulhas nordesteavam.

Uma das indicações mais seguras que Bartolomeu Dias utilizou o astrolábio na sua viagem é dada por Cristóvão Colombo ao fazer uma referência explícita na sua famosa nota escrita num seu exemplar do Imago Mundi de Pierre d’Ailly, escrevendo então que através do astrolábio se verificou (Bartolomeu Dias) que o Cabo da Boa Esperança ficava a 45 graus (errado) do Equador. Também na carta de D. João II, que D. Fernando de Almeida levou ao Papa Alexandre VI e na qual é relatada a descoberta da passagem para o Índico, se faz uma referência explícita à utilização do Sol e das estrelas na arte de navegar dos portugueses.

Numa outra nota também escrita por Cristóvão Colombo, sabemos que em 1485, Mestre José, físico e astrólogo de D. João II, viajou para a Guiné para “reconhecer a altura do Sol em toda a Guiné”. Portanto, três anos antes da viagem de Bartolomeu Dias, podemos concluir que o processo de obtenção da latitude através da altura do Sol na sua culminação estaria a ser testado e verificado para posterior utilização pelos navegantes.

O processo de cálculo da latitude obriga que a altura do Sol seja obtida exactamente na passagem deste pelo meridiano onde se encontra o observador. A utilização da sombra era o processo mais expedito e associado à bússola permitia a avaliação do desvio da agulha, caso ele existisse. No mar ou em terra, Bartolomeu Dias e os seus pilotos diversas vezes terão obtido alturas do Sol através do astrolábio. Ao tentar detectar o momento em que o Sol estava na sua passagem meridiana tiveram diversas oportunidades de verificar que a declinação magnética era (genericamente) nula naquela zona.

Portanto, na conclusão da sua viagem Bartolomeu Dias sabia que a latitude do Cabo da Boa Esperança ficava pelos 35º Sul, e tinha um conhecimento razoável do regime de ventos na mesma zona. Mas também sabia que na zona do Cabo da Boa Esperança as agulhas estavam fixas nos pólos. Já na sua viagem de regresso a Portugal, atribui então o nome de “Agulhas” ao cabo que nas suas observações geograficamente mais se aproximava da linha agónica.