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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

A declinação magnética e os Descobrimentos Portugueses

22.06.17

OrtinsBett_2_Atlântico Sul_1979_3rd mate.jpg

(foto tirada pelo autor no Atlântico Sul, ao largo da Namíbia, em Março de 1979, Oficial de Quarto no N/T "Ortins Bettencourt", SOPONATA)

 

As técnicas e os conhecimentos colocados em prática pelos marinheiros portugueses na utilização das agulhas de marear ou agulhas magnéticas, na gíria popular mais conhecidas por “bússolas”, merecem seguramente um lugar muito mais destacado do que aquele que normalmente lhe tem sido destinado na história dos Descobrimentos Portugueses. A navegação astronómica, as cartas (mapas) marítimas, os roteiros, os regimentos, têm ocupado desde sempre, e merecidamente diga-se, um lugar muito destacado na história dos Descobrimentos Portugueses mas a utilização das agulhas de marear por parte dos marinheiros portugueses exige um estudo muito mais aprofundado visto a mesma utilização ter contribuído de forma significativa para o sucesso dos descobrimentos nas suas fases iniciais e nomeadamente durante o século XV.

 

Originalmente conhecidas pelos Chineses por volta do ano 1000 antes do nascimento de Cristo, foram provavelmente introduzidas pelos Árabes na Europa, seguramente nos finais do século XI, revolucionando a navegação marítima. A sua utilização baseia-se no princípio segundo o qual um ferro natural ou artificialmente magnetizado tende a orientar-se segundo a direcção do campo magnético da Terra.

 

Pelo facto de o pólo magnético terrestre normalmente não coincidir com o pólo geográfico, na maior parte das situações a agulha não apontará exactamente na direcção norte-sul. Ao ângulo que se observa entre as direcções norte‑sul verdadeira e magnética chama‑se declinação magnética, que varia no espaço e também no tempo. Nos lugares onde a declinação magnética é nula o norte geográfico é coincidente com o norte magnético, as agulhas magnéticas apontarão correctamente na direcção do Norte geográfico. Os lugares geográficos com a mesma declinação magnética estão graficamente ligados através das linhas isogónicas. Se a declinação for nula esta linha denomina-se de agónica.

 

Durante centenas de anos de utilização das agulha magnéticas, o fenómeno da declinação magnética não era conhecido ou compreendido. Era necessário conhecer com rigor a direcção do Norte Geográfico e concluir que na maior parte das situações a agulha magnética não apontava nessa direcção. Com a utilização de técnicas que permitiam a determinação de direcção do norte geográfico, percebeu-se que existia um desvio na direcção para a qual as agulhas magnéticas apontavam, desvio este algumas vezes bastante significativo. O que era absolutamente desconhecido era que este desvio variava com o passar do tempo e com o local, sendo usualmente atribuído a Cristóvão Colombo a descoberta prática desta variação, atribuição sobre a qual discordamos convictamente.

 

Alguns construtores de bússolas, como os flamengos, genoveses e alemães pelo menos desde o início do século XV que sabiam que o norte geográfico não coincidia com a ponta norte das agulhas de marear que construíam, a prova disso reside nas técnicas utilizadas na sua construção e montagem, tal como veremos mais adiante. Os marinheiros europeus do século XV, eventualmente até já no século XIV, sabiam que as agulhas de marear tinham comportamentos diferentes conforma a sua origem, se flamengas, genovesas, alemãs ou portuguesas. O que não era conhecido por estes marinheiros ou pelo menos não era compreendido, era o facto de o comportamento das agulhas de marear variar com os locais por onde os navios iam passando e com o correr do tempo (nos lugares por onde passavam).

 

O conjunto de textos que iremos publicar concentram-se fundamentalmente na tentativa de identificação e compreensão de referências que estejam directa ou indirectamente relacionadas com o conhecimento que os pilotos portugueses teriam sobre a declinação magnética nas fases iniciais dos Descobrimentos.

 

Focado o nosso objectivo, alertamos que ao longo dos textos fazemos algumas considerações que derivam da intuição ou do conhecimento empírico mas que não podem ser ou ainda não foram demonstradas ou provadas de forma rigorosa e indiscutível. Algumas vezes, porém, é possível aceitarmos algo como certo através da sua negação, ou seja, concluíndo-se pela aceitação de uma suposição inicial pelo facto de a sua negação ou o contraditório não ser possível ou ser absurdo.