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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

2.2 - Desvios das Agulhas Magnéticas

22.06.17

As massas de ferro que existem nos navios adquirem durante a fase de construção dos mesmos (ou caso os navios estejam imobilizados no mesmo local muito tempo) uma magnetização por influência do campo magnético local. Assim surge o fenómeno do desvio da agulha que é causado pelo campo magnético do próprio navio, e varia conforme a proa (direcção/rumo) do navio. Estes desvios são passíveis de ser eliminados ou reduzidos através de operações de compensação da agulha, tentando fazer com que apenas o campo magnético terrestre actue sobre a agulha magnética.

 

Este processo de compensação (que não iremos aprofundar) era inexistente nos tempos das descobertas portuguesas, mas também se pode concluir que até à introdução generalizada das peças de artilharia (canhões) a bordo, o valor do desvio da agulha seria muito pequeno ou insignificante, pela ausência de quantidades significativas de massas de ferro a bordo dos navios de então. Os ferros de fundear (as âncoras) seriam uma das poucas excepções a esta ausência de significativas massas de ferro a bordo.

 

Por outro lado deveremos também fazer referência às anomalias magnéticas locais, que estão relacionadas com perturbações causadas por rochas magnetizadas na crusta terrestre que interferem no campo magnético, afastando o seu valor do valor médio previsto para uma determinada área. É de toda a justiça recordar que um dos primeiros exploradores/navegadores a detectar este fenómeno das anomalias locais (sem o compreender) foi o grande explorador português D. João de Castro, no século XVI, ao detectar o efeito que as peças de artilharia tinham sobre a estabilidade das agulhas de marear.

 

D. João de Castro, no dia 22 de Dezembro de 1538, registou no Roteiro de Goa a Diu a sua surpresa por ter encontrado acentuada diferença entre as leituras observadas na agulha de marear obtidas em dois lugares vizinhos, nos arredores de Baçaim, concluindo só poder ser atribuida esta diferença ao facto de ter feito as leituras «muito chegado com a terra, onde tinha por vizinho um rochedo e penadia», e a possível natureza férrea dos penedos atrair «para si o ferro da agulha».

 

Podemos então resumir tudo desta forma:

Variação Total = Declinação magnética local + Campo Magnético do navio

Rumo verdadeiro = Rumo da Agulha Magnética + Variação Total

 

Em termos práticos, o rumo verdadeiro é efectivamente o rumo real ou o "caminho" navegado ou percorrido. Existe uma palavra inglesa que define na perfeição o rumo verdadeiro, o "tracking". O rumo definido pela agulha, seja esta magnética ou de outra natureza, tem a designação inglesa de "heading", e que significa direcção. Repare-se que na navegação marítima e aérea, a diferença observada entre o tracking e o heading é também afectada por factores como as marés e os ventos (o efeito provocado poe estes últimos é muito importante na navegação aérea).

 

Nos próximos textos vamos apenas abordar a declinação magnética e o seu efeito nas agulhas de marear nos séculos XV e XVI, ignorando o efeito do próprio campo magnético do navio.

 

 Assim, utilizaremos a seguinte igualdade:

Rumo Verdadeiro = Rumo da Agulha + Declinação magnética