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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

5.1 - Tratado da Agulha de Marear de João de Lisboa

22.06.17

João de Lisboa foi um dos grandes pilotos portugueses na época em que viveu, e atendendo às datas e factos conhecidos da sua vida terá seguramente nascido na segunda metade do século XV, muito provavelmente entre 1470 e 1480. Ficou imortalizado na História dos Descobrimentos Portugueses por ser o autor de um livro de Marinharia que continha o célebre Tratado da Agulha de Marear de 1514. A datação do Livro de Marinharia constitui um enorme desafio visto conter mapas cujas datas de publicação são consideravelmente posteriores a 1514.

 

Existem bons indícios que terá participado na expedição à costa brasileira, em 1501, capitaneada por Gonçalo Coelho. A sua passagem por terras brasileiras é quase uma certeza pois em várias cartas do século XVI se encontra referenciado, no norte do Brasil, um rio com o seu nome.

 

Em 1506 João de Lisboa terá partido para o Oriente, não se sabe se pela segunda vez, na armada de Tristão da Cunha.

 

Em data incerta (1513?) foi nomeado piloto-mor de Portugal e participou, na expedição contra Azamor, comandada pelo duque de Bragança, D. Jaime.

 

Após a elaboração do Tratado em 1514, parte novamente para a Índia em 1518, na armada que transportou o governador Diogo Lopes de Sequeira.

 

Entre 1521 e 1525 terá feito outras viagens à Índia, tendo sido nomeado piloto mor da navegação da Índia e mar oceano, com a morte de Gonçalo Álvares por carta de 12 de Janeiro de 1525. Voltou a embarcar para o Oriente onde provavelmente faleceu, em 1526, isto pelo facto de o seu cargo ter sido entregue, em 15 de Novembro desse mesmo ano, a Fernão de Afonso.

 

A leitura do “Tratado da Agulha de Marear” de João de Lisboa, incorporado num documento mais extenso, o Tratado de Marinharia, oferece sérias dificuldades na compreensão da linguagem técnica utilizada, não esquecendo as dificuldades resultantes dos erros que foram sendo introduzidos e acumulados por sucessivos copistas deste Tratado.

 

A participação de João de Lisboa na elaboração do Tratado de Marinharia parece estar mais focada no papel de compilador de diversas fontes, sendo forte a possibilidade de João de Lisboa ter trabalhado sobre um conjunto de documentos mais antigos que estariam incompletos, associando o seu nome apenas ao Tratado da Agulha de Marear.

 

Sendo um documento de grande importância e significado, a mais antiga versão que se dispõe data de meados de Quinhentos quando o tratado é de 1514, o que significa que existirão diversas cópias entre o original e a cópia mais antiga que dispomos. A obtenção de um texto tanto quanto possível mais próximo do original deve-se em grande medida ao extraordinário esforço do Prof. Dr. Luís Albuquerque, através de comparações entre cópias existentes e a leitura de outros manuscritos que reproduzem, com variações e alterações, parágrafos ou capítulos inteiros da obra. Este trabalho terá permitido recuperar capítulos omissos em cópias mais antigas.

 

Na página 26 do Tratado de Marinharia surge a primeira indicação sobre a sua data:

 

Aqui se começa o tratado da agulha de marear achado por João de Lisboa no ano de 1514 - pelo que se pode saber em qualquer parte que homem estiver quanto é arredado do meridiano verdadeiro pelo variar das agulhas.

 

Trat1.png

 

Muito provavelmente, João de Lisboa, durante o processo de elaboração do seu Tratado, poderá ter tido acesso a documentos mais antigos e incompletos, pelo que é muito provável que sejam diversos os inspiradores do texto do tratado, nomeadamente o piloto Perô Anes e um cosmógrafo alemão conhecido por Mestre Diogo. A contribuição de Perô Anes no Regimento do Cruzeiro do Sul (incorporado no Tratado de João de Lisboa) é normalmente considerada como indiscutível.

 

No Tratado da Agulha de Marear, João de Lisboa tenta sustentar a (falsa) teoria segundo a qual as linhas isogónicas teriam uma correspondência directa com os meridianos terrestres. Segundo esta teoria, a declinação magnética estava directamente relacionada com a longitude através de uma simples regra de proporcionalidade de acordo com o desvio para nordeste ou noroeste que as agulhas apresentavam em relação ao meridiano dos pólos, o meridiano “vero”, a linha agónica, linha que une todos os lugares onde a declinação magnética é nula. Na defesa desta teoria, João de Lisboa aborda temas como a Agulha de Marear, a esfericidade da Terra, não esquecendo os processos astronómicos que permitiam identificar o Norte Geográfico, destacando-se neste conjunto de processos o Regimento do Cruzeiro do Sul.