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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

2.3 - Orientação dos ferros face à rosa-dos-ventos

22.06.17

Sabemos que os ferros que faziam parte do conjunto de elementos que compunham a agulha de marear não eram ímanes permanentes, necessitavam de ser periodicamente magnetizados, utilizando-se para o efeito um íman natural que existia a bordo, efectuando-se o cevar da agulha, operação destinada a conferir magnetização aos referidos ferros.

 

É importante destacar que as características magnéticas das pedras de cevar que eram levadas a bordo, resultavam do efeito da declinação magnética do local onde estas pedras estiveram depositadas ao longo de muitos milhares de anos. No sentido figurativo, podemos afirmar que as pedras de cevar tinham a capacidade de memorizar as características magnéticas do local onde se encontravam antes de serem recolhidas. 

 

Concluída a operação de cevar, a agulha ficava a apontar na direcção Norte-Sul dos ferros (naturalmente alinhando com o norte magnético). Caso a declinação magnética local fosse diferente de zero a agulha não apontaria para o norte geográfico (cuja direcção era conhecida por exemplo através das sombras na culminação do Sol ou pelo culminar da Polar, processos que serão detalhados noutros capítulos). A agulha ficaria ou não fixa nos pólos em função do valor da declinação magnética no local.

 

Em relação à disposição dos ferros (ímanes) face à flor-de-lis (norte da rosa-dos-ventos) vamos identificar duas situações possíveis nas agulhas da época:

 

  • Agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis, resultando que a orientação da rosa-dos-ventos era exactamente igual à orientação dos ferros, com estes permanentemente alinhados com a direcção Norte-Sul gravada na rosa-dos-ventos – flor-de-lis. A flor-de-lis apontava sempre na direcção do norte magnético; 

 

  • Agulhas com os ferros ferrados fora da flor-de-lis, o cartão da rosa-dos-ventos estava inicialmente orientado na forma que fosse considerada como mais conveniente. Os ferros (e a agulha) faziam um ângulo com a flor-de-lis cujo valor era igual ao valor(*) da declinação magnética do local de construção e montagem da agulha de marear. O cartão da rosa-dos-ventos era rodado de tal forma que a flor-de-lis apontava ao norte geográfico no local de construção e montagem da agulha. Na realidade, estas agulhas tinham um factor de correcção para a declinação magnética mas esse factor de correcção era apenas válido precisamente no local de construção e montagem da agulha (ou quando se cevavam os ferros), isto porque a declinação varia conforme a localização geográfica.

(*) - tal como já referido, na realidade o ângulo observado resultava do efeito combinado da declinação magnética no local, de eventuais anomalias magnéticas locais e do campo magnético do navio.

 

 

As agulhas de marear com os ferros ferrados na flor-de-lis foram utilizadas pelos Portugueses, de forma generalizada, seguramente ainda antes do século XVI. A não utilização das agulhas com os ferros ferrados fora da flor-de-lis, em oposição às genovesas, poderá ter sido motivada pelo facto de que no nosso território e nos mares navegados pelos portugueses durante grande parte do século XV, a declinação magnética era muito pequena, quase residual. O Sol culminava praticamente no Norte (ou Sul) magnético. O desvio existente entre o Norte Geográfico e Magnético seria de muito difícil detecção, se considerarmos que as agulhas de marear estavam dividas em quartas. Em termos práticos, as navegações dos marinheiros na costa portuguesa e no norte da África era feita utilizando rumos que poderemos considerar como verdadeiros. Esta terá sido a principal razão para a excepcional qualidade das cartas marítimas portuguesas da época, tema que aprofundaremos num outro texto.

 

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Fenómeno da declinação magnética desconhecido ou ignorado

 

Na fase de montagem de uma agulha de marear, e após a operação de cevar, não se conhecendo que existia um desvio face à direcção do Norte geográfico (ou sendo o desvio observado localmente muito pequeno), optava-se por rodar o cartão da rosa até a flor-de-lis coincidir com a ponta norte da agulha, ficando os ferros magentizados permanentemente nessa posição.

 

Se a declinação magnética fosse igual a 15ºW, caso o piloto da embarcação decide-se governar para norte (360º) na realidade a embarcação iria navegar por 345º. A navegação estimada do piloto teria logo um erro inicial de 15º em relação ao rumo.

 

A equação é simples:

Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W)

360⁰ – 15⁰ (w) = 345⁰

 

Vejamos com mais detalhe:

 

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Considerando não existir mais nenhum efeito (vento, correntes marítimas, mau governo, etc.) além da declinação magnética, o navegador iria calcular (e colocar na carta de marear) a sua posição estimada segundo um rumo de 360 graus, à velocidade Y durante X tempo, e estaria a cometer um erro que é representado na figura nº 22. Não devemos ignorar que a velocidade também era estimada.

 

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Fig. nº 22 – Erros de estima

 

Assumindo uma hipotética viagem entre os pontos A e B, cujo rumo seria sempre igual a 270 graus, e caso a declinação variasse no intervalo entre 5 graus oeste e 5 graus leste, os resultados obtidos, em termos de rumos verdadeiros, seriam os seguintes:

 

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Como se pode facilmente compreender, a variação da declinação magnética poderia acabar por compensar os erros cometidos em fases anteriores de navegação estimada (ver matriz acima) mas nem sempre era assim. Os desvios iniciais poderiam ser anulados pelos desvios finais mas isso dependia muito da forma como a declinação variava ao longo da viagem.

 

Norte Geográfico conhecido

 

Conhecida a direcção do norte geográfico e se a declinação magnética local fosse diferente de zero, rodando o cartão da rosa-dos-ventos até que a agulha apontasse à flor-de-lis, verificava-se que a agulha nãoestava fixa” nos pólos, o norte geográfico não estava na mesma direcção da agulha. (fig. nº23)

 

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Fig. nº23 – Agulha não estava fixa nos pólos

 

Verificada a diferença rodava-se o cartão pelo valor desta diferença, ou seja até que a flor-de-lis ficasse a apontar para o norte geográfico (fig. nº24). Concluída esta rotação, os ferros eram fixados (ferrados) na parte inferior do cartão da rosa-dos-ventos.

 

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Fig. nº24 – Flor-de-lis coincidente com os pólos

 

Através deste engenhoso processo de correcção da declinação magnética, a flor-de-lis coincidia com os pólos em termos de leitura na rosa-dos-ventos mas a ponta norte da agulha não apontava à flor-de-lis. A flor-de-lis estaria desviada para leste ou para oeste em relação à ponta norte da agulha caso o norte magnético estivesse para oeste ou para leste do norte geográfico.

Os ferros eram então fixados (ferrados) na rosa-dos-ventos com um desvio permanente em relação à flor-de-lis. Esta correcção seria eficaz caso a declinação magnética fosse constante.

Os responsáveis pela montagem e instalação deste tipo de agulhas de marear, ao anular o efeito da declinação magnética local, estavam a fazer com que temporariamente os rumos navegados através destas bússolas fossem verdadeiros, isto enquanto a declinação magnética não alterasse (com o local e com o tempo).

 

Vamos novamente considerar uma hipotética viagem entre os pontos A e B. Sendo a declinação do local de partida (A) igual a 5 graus Oeste, vamos considerar que esta correcção foi introduzida na agulha de marear, ou seja os ferros foram ferrados na rosa-dos-ventos de uma forma tal que a flor-de-lis ficou a apontar para o norte geográfico, fazendo um ângulo de 5 graus (para leste) com a ponta norte da agulha (fig. nº25).

 

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Fig. nº25 – Declinação 5º Oeste

 

Recordemos que na viagem entre os pontos A e B, o rumo será sempre igual a 270 graus, e a declinação irá variar no intervalo entre 5 graus oeste e 5 graus leste.

 

Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W) + factor de correcção

 

 

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Como se pode verificar, os rumos iniciais aproximam-se do rumo verdadeiro mas esta situação deteriora-se com a alteração continuada da declinação.

 

Na época não se conhecia a existência da declinação magnética, e que esta variava de acordo com os diversos locais por onde o navio iria navegar e com o tempo. Se a declinação magnética fosse única e constante, então este tipo de agulhas forneceria sempre rumos verdadeiros.

 

Existem evidências que indicam que a operação de rodar o cartão da rosa-dos-ventos era efectuada a bordo, durante a vida útil da agulha.

 

“…e porque os antigos não sentiram esta variação, andavam mudando os ferros das agulhas fora da flor de liz, para que naqueles meridianos onde as cevavam fossem fixas nos pólos do mundo; e por esta razão achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas” -. João de Lisboa, Tratado da Agulha de Marear, 1514.

 

Noutro texto iremos aprofundar o significado desta afirmação, mas João de Lisboa deixa claro que após cada operação de cevar, a orientação da rosa-dos-ventos era ajustada constituíndo um factor de correcção que acompanhava a agulha de marear enquanto ela fosse sendo utilizada até nova operação de cevar. Os ferros eram fixados (ferrados) com um determinado ângulo face à flor-de-lis e assim permaneciam durante algum tempo.