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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

1 - Vasco da Gama na Baía de Santa Helena - erro de navegação ?

27.02.18

Em 1488, Bartolomeu Dias, num extraordinário feito náutico, dobra pela primeira vez a extremidade sul do continente africano. Quase dez anos mais tarde, em 1497, Vasco da Gama, comandante da primeira armada com destino à  Ìndia, fundeia a sua frota na Baía de Santa Helena, cerca de dois graus (120 milhas náuticas, aproximadamente 222 quilómetros) para norte do Cabo da Boa Esperança, na costa atlântica de África. Esta situação é no mínimo surpreendente, as intenções iniciais de Vasco da Gama passariam seguramente por passar a sul do Cabo da Boa Esperança, na conclusão da longa viagem que tinha acabado de efectuar no Atlântico Sul, navegando seguidamente para norte, à procura de terra, já na costa oriental do continente africano, para reabastecimentos e reparações, tal como Bartolomeu Dias tinha feito.

 

Bartolomeu Dias_Cape Town_1978.JPG

  (foto tirada pelo autor, em Agosto de 1978, monumento a Bartolomeu Dias, Cidade do Cabo, África do Sul)

 

Para os marinheiros portugueses da armada de Vasco da Gama, a surpresa deverá ter sido enorme ao verem surgir nas proas dos seus navios uma baía desconhecida(*) situada numa costa que se prolongava para sul, ou seja, ainda não tinham dobrado o Cabo da Boa Esperança. Face a esta situação, podemos suspeitar de um eventual erro de navegação, que se teria manifestado de forma inesperada e que tentaremos abordar num futuro texto.

 

(*) - na realidade não era desconhecida para Pêro de Alenquer, piloto português da nau S. Gabriel da Armada de Vasco da Gama.

 

A técnica de navegação utilizada por Vasco da Gama e pelos seus Capitães e Pilotos, assentava fundamentalmente na estima construída através da conjugação da velocidade estimada do seu navio com os rumos navegados e o eventual conhecimento de ventos e correntes marítimas dominantes. Periodicamente, sempre que as condições atmosféricas o permitiam, a latitude era calculada com a observação da altura do Sol na passagem deste pelo meridiano do lugar (o chamado “meio-dia”). A utilização da Estrela Polar era muito mais limitada e apenas possível no hemisfério norte.

A obtenção da latitude através da altura meridiana do Sol funcionava como um factor de correcção da navegação estimada. Considerando as dificeis condições de leitura (balanço do navio, visibilidade, qualidade dos intrumentos utilizados, etc.) que se colocavam ao observador, o grau de rigor das leituras efectuadas a navegar deveria ser, no mínimo, muito duvidoso. No entanto, e existem imensos testemunhos nesse sentido, as latitudes obtidas em terra eram quase sempre excelentes.

 

Retomando a viagem de Vasco da Gama, a latitude do Cabo da Boa Esperança era conhecida, Bartolomeu Dias tinha-a calculado. Ao aventurar-se pelo Atlântico Sul, é legítimo considerar que Vasco da Gama terá navegado para sul (ao largo do então desconhecido Brasil) até alcançar essa latitude, não faz sentido a utilização de uma estratégia diferente desta, considerando a informação acumulada por Bartolomeu Dias.

 

Atingido esse objectivo, terá começado a navegar sistematicamente para Leste, estimando a sua longitude (distância ao Cabo da Boa Esperança) através da aplicação das já referidas técnicas de navegação estimada. A latitude a que se encontrava era calculada (avaliada será o termo mais correcto, considerando as condicionantes identificadas) sempre que era possível obter a altura do Sol durante a passagem deste pelo meridiano do lugar. Recorde-se, Vasco da Gama, neste trecho de viagem, queria apenas garantir que navegava na latitude correcta para passar a sul do Cabo da Boa Esperança no sentido oeste-leste.

 

Considerando as dificuldades enfrentadas por Bartolomeu Dias e a forma como este conseguiu dobrar o Cabo da Boa Esperança, Vasco da Gama decidiu replicar parte da estratégia utilizada por Bartolomeu Dias quando este dobrou o Cabo da Boa Esperança. Efectivamente, numa decisão mais ou menos afortunada mas que viria a tornar-se fundamental para a história dos Descobrimentos Portugueses, perante os forte ventos contrários e correntes marítimas de Sul que encontrou quando navegava ao longo da costa africana (não muito longe da Baía de Santa Helena), Bartolomeu Dias decidiu navegar para oeste, penetrando de novo no Atlântico Sul até apanhar ventos favoráveis de Oeste que lhe permitiram retomar a navegação para leste e dobrar o Cabo da Boa Esperança sem que o tivesse avistado.

 

BDias1.png

 

Relacionado com o extraordinário feito de Bartolomeu Dias, vejamos este pequeno excerto do diário de bordo cuja autoria é atribuída a Álvaro Velho, tripulante da Armada de Vasco da Gama :

  

AVelho1.png

 

Pêro de Alenquer foi um excepcional piloto português do século XV tenho participado na viagem de Bartolomeu Dias e pilotado a nau S. Gabriel da Armada de Vasco da Gama. Segundo Álvaro Velho, durante  a estadia na Baia de Santa Helena, Pêro de Alenquer estimava que a Armada se encontrava a não mais do que 30 léguas (aprox. 90 milhas marítimas, constituíndo um tema de larga discussão, vamos considerar uma légua como igual a 3 milhas náuticas ) a rree (ré)/oeste do Cabo da Boa Esperança. Justificava Pêro de Alenquer que não podia afirmar nada de muito concreto, pelo facto de um dia (na viagem de regresso da frota de Bartolomeu Dias), ter largado do Cabo da Boa Esperança pela manhã e de ter passado por ali de noite e com vento de popa, isto após terem navegado pelo largo na viagem de ida (facto que já conhecemos).

 

- "um dia ter largado do Cabo da Boa Esperança pela manhã e de ter passado por ali de noite e com vento de popa..."

 

Esta afirmação de Pêro de Alenquer, na nossa perspectiva não esclarece de forma clara e inequívoca se a referida noite foi a do dia de partida (largada do Cabo da Boa Esperança de manhã cedo, provavelmente) ou uma outra noite qualquer.Vamos assumir que efectivamente assim foi, largou do Cabo da Boa Esperança a bordo da S. Gabriel de manhã, tendo passado ao largo da Baía de Santa Helena na noite do mesmo dia.

 

A distância percorrida terá sido igual a cerca de 215 kms, ou 116 milhas náuticas, ou seja aproximadamente 39 léguas (imagem seguinte).

 

Cabo1.png

 

Apesar de ser um tema muito controverso, normalmente é considerado que a velocidade das naus só excepcionalmente alcançava os 4 ou 5 nós (4 ou 5 milhas marítimas por hora), pelo que o troço de viagem relatado por Pêro de Alenquer, sem o efeito de ventos e correntes marítimas muito pronunciadas, seria expectável que tivesse durado entre 33 horas (velocidade de 3 milhas por hora) e 23 horas (velocidade de 5 milhas por hora).

Considerando a hipótese extrema de Pêro de Alenquer ter largado do Cabo da Boa Esperança de madrugada e passado ao largo da Baía de Santa Helena na noite desse mesmo dia, em limite a viagem teria então durado cerca de 20/22 horas, obtendo-se uma velocidade (mínima) estimada de cerca de 6 nós, valor excepcional pois este valor é normalmente considerado como a velocidade máxima das naus da época, daqui se concluíndo pela existência de ventos e correntes marítimas de feição muito pronunciadas, facto que a frota de Bartolomeu Dias tinha sentido, em sentido oposto, quando navegava para sul ao longo da costa da hoje Namíbia.

 

"Pero Dalanquer dizia que ao mais que podiamos ser seriam trinta léguas a rree do Cabo......."

 

Considerando que a armada de Vasco da Gama desde há largos dias que navegava sistematicamente para leste, Pêro de Alenquer afirma que estavam a "rree" do Cabo não mais do que 30 léguas, ou seja a Oeste do Cabo.

 

No caso concreto, a distância entre latitudes era a seguinte:

 

Cabo2.png

 

A latitude do Cabo da Boa Esperança era conhecida (Pêro de Alenquer tinha lá estado com Bartolomeu Dias) e na Baía de Santa Helena seguramente que foram feitas diversas leituras da altura do Sol. Assim sendo, Pêro de Alenquer terá tido a hipótese de verificar que em latitude distava cerca de 195 kms (105 milhas náuticas) do Cabo da Boa Esperança, ou seja aproximadamente 35 léguas. A Armada encontrava-se bem mais a norte do que o pretendido.

Ao estimar encontra-se a cerca de 30 léguas do a Oeste do Cabo, Pêro de Alenquer estava, em termos práticos, a resolver aritmeticamente o triângulo da figura seguinte:

 

Triângulo.PNG

 

Resolvendo o triângulo, obtêm-se um valor de cerca de 90 quilómetros, cerca de 16 léguas, daqui se concluíndo que o valor estimado por Pêro de Alenquer era excelente.

 

 

Regimento das Léguas

 

A estima da posição do navio era muito facilitada pela utilização do Regimento das Léguas, que foi uma adaptação portuguesa da famosa "Toleta de Marteloio"(*). O documento mais antigo que contém uma descrição do Regimento das Léguas, é o Manual de Munique, cuja componente náutica é atribuída a José Vizinho, cosmógrafo de D.João II.

O Regimento das Léguas consiste numa tábua (tabela) que resolve vários triângulos rectângulos em que um dos catetos tem 1ª grau de latitude/meridiano, na época 17,5 léguas.

A tábua tem o seguinte formato:

Tábua de Munique.PNG

 

Na hipótese de Pêro de Alenquer ter utilizado o Regimento das Léguas, terá utilizado como argumentos de entrada um rumo situado entre NNW e NW (rumo aproximado da viagem/relevar entre o Cabo da Boa Esperança e passagem ao largo da Baía de Santa Helena), rumos que destacamos na tábua. Multiplicando por dois os valores obtidos, considerando dois graus de meridiano (diferença de latitudes entre o Cabo da Boa Esperança e a Baía de Santa Helena), terá concluído que estariam afastados do Cabo da Boa Esperança, para ré, entre 15  a 34 léguas.

 

"Pero Dalanquer dizia que ao mais que podiamos ser seriam trinta léguas a rree do Cabo......." 

 

(*) Toleta de Marteloio - Os navios à vela, enfrentam ventos que não são de feição e inconstantes, obrigando o navio a navegar por diversos rumos (bolinar) na procura do melhor rumo que permita a continuação da viagem. A Toleta de Marteloio, com origem mediterrânica e utilizada pelos portugueses no século XV, era constituida por um conjunto de tabelas que permitiam calcular o ponto estimado para um navio que tivesse navegado por diversos rumos durante uma singradura (normalmente um dia de navegação).

 

 

Conclusão

 

Hoje sabemos que Bartolomeu Dias e os seus Pilotos terão efectuado várias leituras da altura meridiana do Sol em diferentes pontos vizinhos do Cabo da Boa Esperança, tendo sido colocados, pelo menos, três padrões, um deles no próprio Cabo da Boa Esperança. Dessas leituras terá sido correctamente obtido o valor da latitude do Cabo, pelo que a dimensão do erro no valor da mesma, a existir, deveria ser insignificante para o rigor existente naquela época.

 

Durante o período de tempo passado na zona do Cabo da Boa Esperança, o percurso da armada de Bartolomeu Dias terá sido aproximadamente este:

 

percursos BDias.PNG

    

A não detecção de um desvio (cerca de dois graus) tão acentuado no valor da latitude que conduziu a armada de Vasco da Gama para a Baía de Santa Helena, não nos parece que possa estar associada a uma deficiente utilização dos aparelhos de medição de altura do Sol (astrolábio, quadrante, balestilha) ou das respectivas tabelas (“Tábuas”) náuticas de então, mas sim a um somatório de situações que conduziram a este erro, nomeadamente o efeito sobre a navegação estimada da então desconhecida declinação magnética, tal como iremos ver num futuro texto.

 

Vasco da Gama e os seus pilotos, em condições normais de tempo e mar, teriam efectuado várias leituras da altura meridiana do Sol ao longo da fase crucial da sua viagem, quando a Armada navegava para Leste em pleno Atlântico Sul, qualquer erro grosseiro na leitura da altura do Sol seria corrigido com as leituras efectuadas nos dias seguintes, pelo que deve ser considerada a hipótese de que durante os dias de navegação sistemática para Leste que antecederam a chegada à extremidade sul do continente africano, dadas as condições atmosféricas, não tenha sido possível efectuar a leitura da altura do Sol da melhor forma possível, tendo os navios da Armada abatido significativamente para norte (rota nº 1 na figura seguinte).

 

Outro factor muito importante que deve ser considerado é que o valor da longitude do Cabo da Boa Esperança resultava exclusivamente do valor estimado por Bartolomeu Dias e pelos seus pilotos. Navegando na latitude correcta, existe assim uma outra hipótese para justificar a chegada à Baía de Santa Helena, e que consiste na possibilidade de Vasco da Gama ter concluído que já tinha ultrapassado a longitude do Cabo da Boa Esperança, tendo então começado a navegar deliberadamente para norte (rota nº 2 na figura seguinte).

 

 

BDias2.png

 

 

 

A própria designação do vizinho Cabo das Agulhas poderá estar indirectamente associada a esta eventual decisão de Vasco da Gama de rumar para norte, permitindo especular sobre um eventual conhecimento muito incipiente do comportamento das agulhas magnéticas naquela zona do Continente Africano (naquele local e naquela época, a declinação magnética era nula).

São todas estas questões e todas as suas envolventes, que iremos abordar ao longo dos próximos textos.

 

Nota de Rodapé: 

A identidade do autor da designação do Cabo das Agulhas ainda hoje está envolta em mistério e provavelmente assim permanecerá para sempre, mas atendendo à primeira referência conhecida (planisfério de Cantino, de 1502), o autor terá sido um dos primeiros quatro Capitães que por lá passaram, a saber, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral ou João da Nova. Consideramos que terá sido Bartolomeu Dias o autor desta designação, mais adiante apresentaremos justificação para esta nossa convicção.

 

 

 

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