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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

5.3 - Ferros ferrados na flor-de-lis

28.02.18

Alguma razão, ou um somatório de várias razões, terá contribuído para a ideia de evoluir para um tipo de agulhas de marear com os ferros fixos na rosa,  desta forma a flor-de-lis estava sempre alinhada com a agulha magnética. Foi esta a opção adoptada pelos Portugueses eventualmente ainda no século XV sendo de utilização corrente no século XVI. Estamos profundamente convencidos que a generalização da utilização do Sol na navegação astronómica terá tido um papel preponderante nesta opção dos construtores portugueses de agulhas de marear.

 

Vejamos o que diz o espanhol Alonso de Santa Cruz, famoso cartógrafo espanhol do Século XVI que visitou Portugal em 1545, na sua obra “Libro de Longitudes” (publicada em 1555) sobre o facto de os pilotos espanhóis utilizarem agulhas com ferros ferrados fora da flor-de-lis ao contrário dos pilotos portugueses que utilizavam agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis.

 

“ [comparando com os portugueses] lo que no hacen los pilotos [espanhóis] que navegan el poniente, por llevar los hierros debaxo da la rosa media quarta más al levante de la flor de lis de las 32 em que está repartida el aguja que es la diferança que la aguja hace hacia al nordeste de Sevilla”.

 

Alonso de Santa Cruz diz que os pilotos espanhóis que navegavam para as Índias Ocidentais [poniente] com agulhas com ferros ferrados fora da flor-de-lis, iniciavam as suas viagens (de Sevilha, Huelva, etc.) com a ponta norte da agulha a apontar [por llevar los hierros debaxo da la rosa] para levante (leste, oriente, nascente) com um desvio em relação à flor-de-lis (norte do cartão da rosa-dos-ventos) igual a cerca de 5,625 graus [media quarta más al levante de la flor de lis de las 32 em que está repartida el aguja]. Este ângulo seria o valor da declinação magnética (5,625 graus Leste) que seria observado em Sevilha naquela época, por quem montava ou cevava as agulhas de marear naquela zona.

 

Na figura nº 32 tentamos ilustrar esta situação não respeitando a escala face ao ângulo (meia quarta) para tornar a figura mais legível.

 

Agulha1.png

 Fig. Nº32 – À saída de Sevilha

 

Mas Alonso de Santa Cruz disse mais ainda:

 

es que los portugueses traen más verdad y que lo han notado más curiosamente, porque llevan los hierros cebados debajo da la flor de lis de la rosa del aguja u asi há lugar de hacerse mejor las consideraciones…

 

Alonso de Santa Cruz basicamente diz que os portugueses, por utilizarem os ferros ferrados na flor-de-lis, obtinham melhores resultados com a utilização das suas agulhas, isto em comparação com os marinheiros espanhóis. Em que se baseava o espanhol para fazer esta afirmação?

 

Seguidamente apresentamos uma tabela que tenta representar uma hipotética viagem com a duração de 30 dias de Sevilha a um porto das Caraíbas em meados do século XVI. Considerámos a declinação à saída de Sevilha como sendo igual a seis graus Oeste, e utilizámos os valores estimados para a declinação magnética da época ao longo da travessia do Atlântico. Os rumos da agulha são absolutamente hipotéticos, não considerando as normais singraduras dos navios da época, assim sendo tentámos utilizar valores médios para os rumos. Fizemos a comparação dos rumos verdadeiros caso tivéssemos optado entre utilizar uma agulha com os ferros na flor-de-lis ou uma agulha com ferros fora da flor-de-lis (como era o caso dos navios espanhóis).

 

Nota:

Ferros na flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W)

 

Ferros fora da flor-de-lis - Rumo verdadeiro = Rumo da agulha + declinação (+ E, - W) + factor de correcção (-6)

 

 

Agulha2.png

 

 

Como se pode facilmente observar, após uma fase inicial de menor erro, a agulha com os ferros fora da flor-de-lis começa a apresentar erros de grandeza muito superiores aos apresentados pela agulha com os ferros na flor-de-lis, isto porque houve uma mudança de sinal, ou seja a declinação que era Leste à saída de Sevilha passou a ser de Oeste a partir de certa altura durante a travessia do Atlântico. Nos primeiros dias os erros nos rumos acabam por se anular entre si mas mudando o sinal da declinação então os erros das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis passam a ser muitos mais significativos.

 

Como conclusão, podemos afirmar que as agulhas de ferros fora da flor-de-lis eram muito eficazes enquanto a declinação não variasse ou variasse pouco quando comparada com a declinação magnética do local de construção/montagem, o factor de correcção implementado anulava a declinação magnética, daí resultando a navegação por rumos verdadeiros. No entanto, assim que a declinação variasse significativamente ou de sinal, os resultados deterioravam-se rapidamente com consequências bem visíveis para a navegação estimada.

 

Em termos práticos, à saída de Sevilha os pilotos espanhóis verificavam que as agulhas apontavam correctamente em direcção ao Norte mas, nos seus destinos nas Caraíbas, as agulhas “afastavam-se” do Norte (noroesteavam) em mais de uma quarta, o dobro do que se observava nas agulhas com os ferros na flor-de-lis.

 

Esta situação era muito visível nas travessias do Atlântico com destino às Caraíbas, dada a contínua alteração da declinação magnética ao longo dessa travessia, pensamos que seja esta a razão principal para a afirmação es que los portugueses traen más verdad ……… asi há lugar de hacerse mejor las consideraciones…”.

 

 

Tratado da Agulha de Marear de João de Lisboa

 

Regressemos ao Tratado da Agulha de Marear no ponto em que João de Lisboa apresenta o seguinte raciocínio:

 

“…e porque os antigos não sentiram esta variação, andavam mudando os ferros das agulhas fora da flor de liz, para que naqueles meridianos onde as cevavam fossem fixas nos pólos do mundo; e por esta razão achamos nas cartas todas as costas falsas por uma quarta e por duas”.

 

Esta afirmação de João de Lisboa é composta por várias componentes. Identifica a existência de uma variação, fala das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis e identifica-as como causadoras de erros na qualidade da cartografia da época.

 

No capítulo VII do Tratado da Agulha de Marear, “Regra para saberes cevar a tua agulha de marear”, destacamos a seguinte afirmação:

 

saberei que para cevar a agulha perfeitamente, conforme aos padrões de Portugal, há-de ter os ferros da rosa no meio da flor-de-lis, e não afastados dele coisa alguma, como tem algumas que se fazem em Flandres, que não são certas…..”

 

É interessante a observação que o João de Lisboa faz sobre a existência de “padrões de Portugal” em relação aos ferros da rosa, facto confirmado em absoluto pelo espanhol Alonso de Santa Cruz quando afirma “lo que no hacen los pilotos [espanhóis]”.

 

Variação

 

variação aqui identificada por João de Lisboa é descrita também pelo mesmo desta forma:

 

“…se forem do meridiano vero [suposto meridiano onde a declinação magnética seria zeropara o oriente fazem conhecimento para nordeste tanto quanto vos dele afastais seguindo do meridiano para o ocidente fazem conhecimento para noroeste… a isto se chama noroestear e nordestear”.

 

Esta afirmação contém o suporte fundamental da (falsa) teoria de João de Lisboa segundo a qual a longitude estaria directamente relacionada com os desvios que as agulhas sofriam em relação ao norte geográfico (pólos fixos). Ora, segundo João de Lisboa, os antigos não sentiram esta variação, continuando a utilizar agulhas de marear com ferros fora da flor-de-lis.

João de Lisboa parece dar uma indicação que o conhecimento do fenómeno do noroestear e nordestear das agulhas esteve directamente relacionado com a ideia que então surgiu em Portugal, de ferrar os ferros de forma a estes ficarem coincidentes com a flor-de-lis.

 

Para João de Lisboa, as agulhas com os ferros fora da flor-de-lis invalidavam a utilização da sua (falsa) teoria sobre o cálculo da longitude.

 

As agulhas com os ferros fora da flor-de-lis cancelavam o efeito da declinação local quando era efectuado o cevar das agulhas, originando a navegação por rumos verdadeiros enquanto a declinação magnética se mantivesse constante. Com a variação da declinação magnética com o local e com a data, o noroestear e nordestear das agulhas também se detectava, mas os rumos verdadeiros estavam afectados pela correcção inicial (umas mais ocidentais, outras mais orientais) que era efectuada na operação de construção e montagem da agulha (a flor-de-lis ficava a apontar para o norte geográfico), pelo que os resultados da navegação estimada dos pilotos eram forçosamente diferentes.

 

Nas agulhas de ferros fixos ou ferrados na flor-de-lis, o noroestear e nordestear era em relação à flor-de-lis, e segundo João de Lisboa era possível através de leitura directa destes desvios calcular a longitude. Para João de Lisboa, com a utilização de agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis, o cálculo da longitude era simples e directo, bastava medir a variação local apresentada pela agulha.

 

 Para João de Lisboa a conclusão era simples e óbvia: 

 

  • Nas agulhas de ferros fixos ou ferrados na flor-de-lis, após a operação de cevar, se a agulha noroesteasse ou nordesteasse em relação aos pólos fixos, então a longitude onde se encontrava a embarcação estava proporcionalmente afastada do meridiano Vero, se pelo contrário a agulha estivesse fixa nos pólos então a embarcação estava no meridiano Vero. Esta regra mantinha-se ao longo do tempo em que se utilizava a agulha na navegação da embarcação, até nova operação de cevar.

 

  • Nas agulhas com os ferros fora da flor-de-lis, a rosa-dos-ventos era orientada de forma que a flor-de-lis apontava em direcção ao norte geográfico com um ângulo face à agulha que respeitava o desvio (declinação) observado localmente no local de construção e montagem da agulha (ou onde os ferros eram magnetizados), o cálculo da longitude ficava comprometido.

 

Costas Falsas

 

Voltaremos a este assunto mais adiante neste trabalho mas gostaríamos de abordar este tema utilizando o que João de Lisboa diz no capítulo I do Tratado.

 

e em a flor de lis se hão de pôr os ferros sem tomar de nordeste nem de noroeste; porque costumavam alguns, como dito é, fora da flor de liz por uma quarta ou duas ou mais, segundo era fora do meridiano fixo

 

João de Lisboa identifica agulhas de marear cujos ferros chegavam a estar ferrados fora da flor-de-lis em ângulos superiores às duas quartas. Esta e outras observações irão ser alvo de um estudo mais detalhado.

 

Concluímos, dizendo que no último quartel do século XV, em relação aos Descobrimentos Portugueses e às agulhas de marear, parece ter existido uma sequência de eventos que podemos resumir da seguinte forma:

  1. detecção de que as agulhas noroesteavam e nordesteavam com a navegação em longitude, nomeadamente durante as navegações efectuadas no Atlântico Norte pelos marinheiros portugueses;
  2. (falsa) percepção que a longitude estaria proporcionalmente relacionada com o noroestear e nordestear; e,
  3. utilização generalizada da agulhas com os ferros ferrados na flor-de-lis de forma a evitar as deficiências das agulhas com os ferros fora da flor-de-lis.