Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

5.5 Bornear da Agulha

05.03.18

Em actualização

 

Na segunda metade do Século XV, já era evidente para os navegadores que o norte das agulhas de marear e o norte geográfico não eram coincidentes na maior parte dos casos. A identificação do momento da culminação do Sol, condição fundamental para o cálculo da latitude, permitiu evidenciar de forma clara este facto. A culminação teria que se verificar a norte ou a sul do local de observação, e isso não se verificava. Mais tarde, os navegadores da época começaram sistematicamente a medir a diferença entre os dois pólos, obtendo desta forma o valor da declinação magnética local (sem que conhecessem a sua existência).

 

No Tratado da Agulha de Marear, Capítulo VIII - Que declara a causa e noroestear a nordestear das agulhas,  João de Lisboa escreve o seguinte:

 

Convém saber: o mundo é redondo, como ele mesmo se mostra e por muitas experiências é sabido, e os pólos sobre que estes céus se movem são dois, pólos ártico e antártico.

E temos sabido que a dita agulha de marear tem um ferro de norte e sul; e sendo este ferro cevado na pedra de cevar, assim o pólo norte como o pólo sul são tão sujeitos aos pólos ártico e antártico do mundo, pelo dito cevamento da pedra, por Nosso Senhor influir nela uma tão singular virtude, que em nenhuma parte repousa nem descansa, senão quando direitamente com a flor de lis se enfiam (*) em direito com os ditos pólos do mundo".

(*) - os ferros

 

Ainda no mesmo capítulo VIII, continua João de Lisboa :

  

E quando a dita agulha se acha em parte onde se diante põe a redondeza da terra e mar entre a agulha e pólo, pelos desejos naturais que tem o dito pólo, se inclina aquela onde lhe é mais propínquo (*) o que lhe causa o seu noroestear e nordestear........e se no Cabo das Agulhas, que está junto do Cabo da Boa Esperança, 28 léguas a leste dele, e no Cabo de São Agostinho [nota-Recife, Brasil], e em outra alguma parte a dita agulha está com os pólos o mundo fixa, é porque ali está recebendo o seu descanso....."

(*) - próprio

 

No Tratado da Agulha de Marear, João de Lisboa tenta sustentar a teoria segundo a qual as linhas isogónicas teriam uma correspondência directa com os meridianos terrestres. Segundo esta teoria, a declinação magnética estava directamente relacionada com a longitude através de uma simples regra de proporcionalidade de acordo com o desvio para nordeste ou noroeste que as agulhas apresentavam em relação ao meridiano dos pólos, o meridiano “vero”, a linha agónica, linha que une todos os lugares onde a declinação magnética é nula. 

 

No Tratado da Agulha de Marear, Capítulo IX - Em que se declara onde havemos de tomar este meridiano vero, e assim a quanrtidade da quarta; e depois das outras, começando da equinocial(*) para os pólos do Mundo,  João de Lisboa escreve o seguinte:

(*) - equador

 

E quando a dita agulha se acha em parte onde se diante põe a redondeza da terra e mar entre a agulha e pólo, pelos desejos naturais que tem o dito pólo, se inclina aquela onde lhe é mais propínquo (*) o que lhe causa o seu noroestear e nordestear........e se no Cabo das Agulhas, que está junto do Cabo da Boa Esperança, 28 léguas a leste dele, e no Cabo de São Agostinho [nota-Recife, Brasil], e em outra alguma parte a dita agulha está com os pólos o mundo fixa, é porque ali está recebendo o seu descanso....."

 

 

 

 

 

Um dos mecanismos cujo conhecimento chegou aos nossos dias e cuja utilização associada à agulha de marear permitia a determinação mais rigorosa do momento da passagem pelo meridiano do lugar de um determinado astro, era constituído por uma semicircunferência de arame que era montada sobre a caixa da bússola, com as suas extremidades colocadas em pontos opostos, com o objectivo de que o plano da semicircunferência ficasse perpendicular ao da rosa-dos-ventos, ou seja coincidente com o plano vertical que continha a agulha de marear.

 

Mantendo a base da caixa da agulha em posição horizontal, esta devia ser orientada (rodada) de modo que o plano da semicircunferência coincidisse com o círculo vertical do astro em observação. Esta operação tinha a designação de bornear a agulha. Nesta posição era possível comparar o azimute da estrela com o valor indicado pela agulha, sendo o ângulo obtido directamente através da leitura na rosa-dos-ventos. De facto, nesta posição e caso o astro observado estive a culminar, o plano vertical da semicircunferência de arame era o meridiano do lugar e o ângulo observado era o valor da declinação magnética local. A estrela Polar e a constelação do Cruzeiro do Sul, foram intensivamente e durante muitos anos utilizadas neste processo.

 

A operação de bornear era delicada pois a caixa da agulha de marear tinha de ser mantida numa posição que garantisse que a sua base estivesse horizontal. A própria leitura do ângulo observado era dificil de efectuar para quem rodava em simultâneo a agulha de marear, existem vários relatos que demonstram de forma inequívoca que esta operação era feita por duas pessoas. Por outro lado, quanto mais elevado estivesse o astro em relação a horizonte, maior era o erro do processo, isto porque a caixa também teria que ser colocada numa posição mais elevada para permitir o "bornear" do astro.

 

É fácil concluir que deverá ter existido um número elevado de variantes deste mecanismo. Pensamos que em alguns casos a semicircunferência em arame (figura nº.15) possa ter sido constituída por duas semicircunferências, paralelamente ajustadas entre si para que existisse um pequeno intervalo (ranhura) entre os dois arames que facilitasse o correcto alinhamento visual com o astro a observar. 

polar7.png

 

.Fig. nº15 – Utilização da semicircunferência em arame

 

João de Lisboa, no capítulo VI – “em que se declara como hás-de ter a agulha nas mãos” -  do Tratado da Agulha, e quando se debruça sobre o Regimento do Cruzeiro do Sul (que não iremos abordar mas que era o equivalente aos Regimentos da Polar mas no hemisfério Sul), faz a seguinte descrição da aplicação de um aparelho ou artefacto que permitia medir a declinação da agulha :

 

 “Ao tomar esta agulha na mão, hás-de olhar que a tenhas sempre ao nível (*), porque estando acostada (*) é falsa, e não se fará a verdadeira conta. E assim mesmo hás-de ver que o seu circulo não jaza acostado (*), mas antes do zénite dela caia uma linha com chumbo pelo meio da rosa (*); e, vindo assim, então está para se fazer verdadeira operação ”

(*) – preocupação em garantir a horizontalidade e estabilidade da agulha de marear

  

Prossegue João de Lisboa:

 

Então bornearás pelos furos do semi-circulo o pé do Cruzeiro, até que seja metido pela abertura; então verás onde aponta a flor-de-lis da agulha …

 

Quando se afirma "bornearás pelos furos" significa que a caixa da agulha seria rodada até que os furos estivessem alinhados. Esse alinhamento deveria coincidir com o alinhamento do astro no plano vertical do semi-circulo...."até que seja metido pela abertura; então verás onde aponta a flor-de-lis da agulha …”.

Só nesse preciso momento é que a operação era considerada como concluída, "então verás onde aponta a flor-de-lis da agulha ”.

 

A utilização deste tipo de aparelho teve iníco na segunda metade do Século XV, quando já era evidente para os navegadores que o norte das agulhas de marear e o norte geográfico não eram coincidentes na maior parte dos casos. Recorrendo à Polar ou ao Cruzeiro do Sul, com o intuito de medir a diferença entre os dois pólos, obtendo desta forma o valor da declinação magnética local, os navegadores da época começaram a perceber que as diferenças observadas variavam não apenas entre os diversos locais por onde navegavam mas também com o passar do tempo.

 

A construção e montagem a bordo deste tipo de mecanismos de leitura de azimutes e de sombras surge com o início da utilização do Sol na navegação astronómica. O conhecimento do momento da passagem meridiana do Sol era um factor crítico para o cálculo da latitude. No caso da Polar e do Cruzeiro do Sul, se as condições atmosféricas o permitissem, os respectivos regimentos eram aplicados através de uma simples observação dos céus, não era necessário qualquer tipo de leitura mais ou menos rigorosa de azimutes.

 

A aplicação de aparelhos de sombras nas agulhas já seria prática relativamente comum, mais antiga, e que era feita para identificar a passagem meridiana do Sol, tendo esta operação com o tempo evoluído para a avaliação dos ângulos associados à declinação magnética, passando a ser feita utilizando a Polar e o Cruzeiro do Sul, com a intenção de medir o "afastamento entre os polos".