Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

8.2 - Vasco da Gama no Atlântico Sul

01.10.18

Vasco da Gama inicia a sua viagem com destino à Índia com algumas certezas e muitas dúvidas.

 

Vejamos:  

  • latitude do Cabo da Boa Esperança era aproximadamente igual a 35º Sul, latitude calculada por Bartolomeu Dias e pelos pilotos deste.
  • Tinha um conhecimento razoável do regime de ventos na mesma zona, conhecimento que resultava da experiência que Bartolomeu Dias tinha obtido quando dobrou o Cabo da Boa Esperança em 1488.

 

Quanto ao meridiano (longitude) que passava pelo mesmo Cabo, Vasco da Gama dependia absolutamente do rigor dos cálculos de Bartolomeu Dias e da qualidade das novas cartas de marear que eventualmente teriam sido desenhadas já com as novas terras descobertas por Bartolomeu Dias.

 

A longitude do Cabo da Boa Esperança dependia quase exclusivamente do valor estimado por Bartolomeu Dias, embora não deva ser esquecida a contribuição das viagens de Diogo Cão ao longo da costa ocidental de África para o seu conhecimento. De facto, as viagens de Diogo Cão permitiram conhecer o perfil da costa africana na região, concluindo-se que o Cabo da Boa Esperança naturalmente se encontraria no prolongamento das terras sucessivamente descobertas por Diogo Cão, desta forma fornecendo uma primeira indicação da longitude do Cabo da Boa Esperança. Por outro lado, esta informação terá sido confirmado na viagem de regresso de Bartolomeu Dias, considerando que foi comprovadamente efectuada, pelo menos na fase inicial, ao longo da costa ocidental do continente africano.

  

 

Ventos AS.PNG

 Fig. 67 – Regime de ventos no Atlântico conhecido por Vasco da Gama

 

 

Vasco da Gama, ao planear a sua viagem, sabia que grande parte do sucesso da sua viagem consistia em beneficiar dos ventos de Oeste (setas a negro na fig. nº 67) que Bartolomeu Dias detectou quando tentava prosseguir para sul, ao efectuar uma volta de mar para evitar os ventos contrários que sopravam ao longo da costa do sudoeste africano. Existia um vasto espaço no Oceano Atlântico no qual se desconhecia o regime dos ventos mas Vasco da Gama certamente que imaginaria ou desejaria que pudesse existir um regime tal como surge desenhado na fig. nº 68 por setas verdes.

 

Num feito naval de extrema importância no desenvolvimento dos Descobrimentos Portugueses, Bartolomeu Dias tinha identificado um regime de ventos de Oeste que impulsionava os navios em direcção e para sul do Cabo da Boa Esperança, provavelmente existia a esperança que no Atlântico Sul existisse uma “Volta da Mina” simétrica à original.

 

Parece-nos evidente que Vasco da Gama, face ao regime de ventos conhecido, pretendia iniciar o mais tarde possível a grande volta pelo Atlântico Sul, de forma a evitar ou a diminuir o forte abatimento para Oeste que iria ser sujeito, nomeadamente na fase inicial da travessia, tendo em linha de conta os ventos dominantes na zona. Por outro lado, Vasco da Gama tinha que forçosamente conhecer razoavelmente bem o meridiano onde a sua Armada se encontrava quando fosse decidido rumar para sul, ou seja quando se desse início à navegação, sem qualquer referência costeira, no Atlântico Sul. 

 

Vasco da Gama tinha como objectivo navegar sempre para Sul (se os ventos o permitissem) até que a latitude de 35º Sul (Cabo da Boa Esperança) fosse atingida. Atingida esta latitude, só restava a decisão de navegar continuadamente para Leste, pelo que o conhecimento do meridiano de partida, por mais incipiente e grosseiro que fosse este conhecimento, era fundamental para o cálculo estimado das distâncias navegadas.

 

Ventos AS2.PNG

 Fig. 68 – Hipotético regime de ventos no Atlântico imaginado por Vasco da Gama

 

 

Constituindo habitualmente um ponto de grande polémica, é desta forma simples que se justifica porque motivo Vasco da Gama iniciou a travessia do Atlântico Sul ao largo da Serra Leoa, entre o Cabo de Santa Ana e o Cabo Palmas. Nada tem a ver com um hipotético conhecimento prévio da existência do Brasil (como alguns defendem) mas acima de tudo uma tentativa de beneficiar o mais cedo possível de ventos favoráveis e em simultâneo reduzir ao máximo o efeito negativo dos ventos contrários.

 

Ventos AS3.PNG

 Fig. 69 – Início da travessia por Vasco da Gama do Atlântico Sul

 

  

Através da fig. nº69, é possível perceber porque motivo Vasco da Gama, entre várias alternativas, escolheu a nº3. A sua intenção seria partir da melhor longitude face ao que se suponha ser o regime de ventos do Atlântico Sul.

 

Navegando para Leste no Atlântico Sul

 

Porem, dobrado o cabo de sancto Agostinho, e começandonos o vento de hir alargando ate ventar da banda do ponente, cousa he muito manifesta que, atee sermos com terra do cabo de boa esperança, jamaes a proa de nossas naos vai fora daquelles rumos que jazem do leste das agulhas ate o rumo do sul. Em toda esta travessia as agulhas nordesteavam

(D. João de Castro no seu Roteiro de Lisboa a Goa)

 

O Cabo de Santo António fica na costa nordeste do Brasil, D. João de Castro relata a mudança da direcção do vento  que se vai acentuado ao longo da viagem para sul, ficando de oeste até se alcançar o Cabo da Boa Esperança. Confirmando os modelos apresentados em capítulos anteriores, D. João de Castro detectava que as agulhas nordesteavam durante toda a travessia.

 

se foram [os navegadores] ao Sul até 40 graus, e tinham ao meio-dia o Sol a noroeste quarta de norte”

 

(Diário de Hans Mayr (*), 1505, Armada de D. Francisco de Almeida, ao largo da costa do Brasil).

 

Além do testemunho relacionado com a mudança de rumo aos 40 graus sul de latitude, é interessante verificar o testemunho sobre o pronunciado desvio da agulha face ao norte verdadeiro (meio-dia Solar), noroeste quarta de norte (11º 15´).

 

 

Nota de rodapé - (*) Hans Mayr

 

Façamos uma pequena interrupção na abordagem ao nosso tema principal e falemos sobre o caso particular de Hans Mayr, desta forma introduzindo um tema pouco conhecido sobre os Descobrimentos Portugueses, e que de certa forma coloca parcialmente em causa a teoria do secretismo que envolveria os descobrimentos portugueses.

 

Hans Mayr era um mercador/comerciante alemão de uma casa comercial alemã (Welser, Fugger, etc, são exemplos de várias) de Augsburgo, que viveu entre o final do século XV e inicio do século XVI. Na época era habitual que várias casas comerciais europeias (alemãs e holandeses fundamentalmente) participassem como observadores nas expedições portuguesas, participações autorizadas a troco de apoio financeiro, financiando-se parcialmente as viagens desta forma.

 

No caso concreto de Hans Mayr, ele participou na 7ª Armada da Índia (1505), capitaneada pelo grande D. Francisco de Almeida, 1º Vice-Rei da Índia, (Tristão da Cunha era o favorito do Rei para este cargo, mas uma doença temporária na visão fez com que rumasse à India apenas na 8ª Armada, cedendo o posto de Vice-Rei a D. Francisco de Almeida).

 

De acordo com os registos, a casa comercial de Hans Mayr terá participado nos custos de construção e preparação da Nau S. Rafael (os registos apontam para um total de 3 naus financiadas pelos Alemães, numa Armada de 29 navios de diversos tipos). É nesse navio que embarca Hans Mayr, que por razões desconhecidas terá ficado responsável pela elaboração do diário de viagem/bordo. Não existe a certeza absoluta sobre este facto mas assim ficou para a história. É precisamente nesse diário de bordo que surgem registados valores sobre o afastamento das agulhas.