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Cabo das Tormentas 1488

Ensaios sobre a Declinação Magnética e os Descobrimentos Portugueses

8.3 - Navegando para Leste

01.10.18

Já como referido, em 27 de Junho de 1538, D. João de Castro chega ao Cabo das Agulhas vindo de poente, e no seu Roteiro de Lisboa a Goa relata a mesma chegada desta forma:

 

este dia á tarde me pareceo que via terra, mas o piloto e mestre me contrariarão, dizendo que não podia ser por sermos inda muito a Ré; porém não tardou mea ora que o Piloto disse que via terra e lhe parecia o cabo das agulhas, e logo lançou o prumo ao mar, mas não tomou fundo, a parecer de todos, posto que elle o afirmasse muito: este cabo das agulhas he o lugar onde ao pilotos tem por máxima que as suas agulhas lhe não varião cousa alguma, mas ferem directamente nos verdadeiros polos do mundo, e da qui veo chamarem a este promontorio cabo das agulhas, significando não fazerem já aqui nenhuma differença. Ao tempo que vimos a terra, eu me fazia a ré della 120 legoas, e o piloto 110

 

«Já atras digo como este caminho do Brasil pêra o Cabo de Boa Esperança he mais curto do q o situão nas cartas, e a razão disto é a differença que a agulha nesta derota faz de nordestear, por hõde muitas vezes a náo he no Cabo de Boa esperança, e os pontos ficam muito atraz

 

Neste trecho do roteiro, D. João de Castro,  avistado o Cabo das Agulhas, realça a enorme diferença encontrada entre a sua posição estimada e o Cabo das Agulhas, isto após a longa travessia iniciada ao largo da costa do Brasil em direcção à extremidade sul do continente africano.  Considerando uma légua aproximadamente igual a 3 milhas náuticas, D. João de Castro identifica erros na sua navegação estimada superiores a 300 milhas (em longitude....eu me fazia a ré della 120 legoas, e o piloto 110......e os pontos ficam muito atraz), valores muito pronunciados mesmo naquela época.

 

Travessia Sul.PNG

Fig. 70 – Início da travessia por Vasco da Gama do Atlântico Sul

 

 

Através da figura nº 70, verificamos que a distância a percorrer na travessia entre o largo da costa do Brasil e a extremidade sul do continente africano era aproximadamente igual a 2.500 milhas náuticas.

 

Simulando várias velocidades, entre os 3 os 5 nós, facilmente se conclui que este troço da viagem teria um duração que variava entre os 25 e os 35 dias. Assumindo uma duração de 30 dias, e considerando os erros na estima identificados por D. João de Castro, podemos então concluir que na perspectiva de D. João de Castro, os erros de navegação cometidos no cálculo das distâncias percorridas em latitude no paralelo 35º Sul ou numa latitude próxima, seriam na ordem das 10 (dez) milhas por dia para ré (oeste), valores que obviamente acumulavam com o passar dos dias, ou seja o navio na realidade encontrava-se cada vez mais afastado do ponto estimado, para leste, num incremento diário na ordem das 10 (dez) milhas.

 

Podemos desde já identificar três factores que seguramente contribuíam para este facto:

  1. O Cabo da Boa Esperança e toda a região vizinha estavam incorrectamente cartografados, nomeadamente com erros grosseiros cometidos nos valores da longitude
  2. Medição de distâncias incorrectas por não ser utilizada uma escala adequada à natural convergência dos meridianos. A utilizaçao de vários "tipos" de léguas também terá contribuído para esta situação
  3. Desconhecimento da real velocidade do navio face ao fundo.

 

Efeito da declinação magnética no erro da estima identificado por D. João de Castro

 

Vamos agora abordar o efeito que a declinação magnética teria sobre este erro que D. João de Castro assinala no seu roteiro.

 

 

Rota Leste.PNG

 Fig. 71 – Estimativa de erro diário

 

 

No pequena esquema exposto na figura 71, simulando uma distância navegada diariamente na ordem das 90 milhas, facilmente se conclui, que para uma declinação magnética média igual a 15º Leste, o erro na estima diária da distância navegada seria aproximadamente igual a 3 milhas (90-87). A longitude estimada do navio (ponto/ponto de fantasia) era erradamente colocada cerca de 3 milhas náuticas para leste da longitude real. Se este ritmo de erro se mantivesse diariamente, no final de 30 dias, valor que estimamos para a travessia entre a costa do Brasil e o Cabo da Boa Esperança, este erro acumulado no cálculo da longitude seria igual aproximadamente a 100 milhas, para Leste, ou seja, o navio estaria cerca de 100 milhas para do valor estimado.

 

A questão que aqui se coloca, é que este erro verifica-se na direcção oposta do erro identificado por D. João de Castro. Vejamos:

 

  1. D. João de Castro afirma que quando identifica visualmente a zona do Cabo, esperava ainda estar a uma distância deste último na ordem das 300 milhas (para oeste do Cabo)
  2. Pelos cálculos acima expostos, considerámos que o erro na estima da distância navegada, em longitude, causado pela declinação magnética, poderia atingir um valor aproximadamente igual a 100 milhas, com a posição estimada do navio erradamente colocada 100 milhas a leste da posição real. 

 

Portanto o erro com origem da declinação magnética ainda deveria ter tornado mais evidente a situação identificada por D. João de Castro.

 

Como nota de curiosidade, e recorrendo novamente à trigonometria plana, é fácil concluir que o desvio diário na latitude (para Sul), com origem na forte declinação magnética, seria aproximadamente igual a 20-25 milhas, ou seja 20-25 minutos de arco. Este valor, na nossa perspectiva, é sensivelmente igual ao valor mínimo detectável na escala do astrolábio, pelo que assumimos que o abatimento para Sul do navio só seria claramente identificado após 2 a 3 dias de navegação.

 

Como se pode verificar na figura, a escala do astrolábio era na ordem dos 30 minutos, com a melhor interpolação visual a rondar os 15 minutos.

 

Mediclina.PNG

 

 

Concluímos afirmando que os valores observados para a declinação magnética no Atlântico Sul no século XVI, contribuíam obviamente para o rigor da navegação estimada dos navios, mas os fortes desvios observados, face à estima, após a travessia do Atlântico Sul, resultavam fundamentalmente de erros grosseiros cometidos na cartografia de época, em concreto na representação geográfica da zona do Cabo, com a atribuição de um valor muito errado para a longitude do Cabo da Boa Esperança.